Notas para uma Introdução à Identidade Anglicana
- dasp.comunicacao

- 16 de jul.
- 24 min de leitura
Atualizado: 20 de jul.

1. O fundamento da identidade anglicana
A pergunta sobre a identidade anglicana não é nova. Ela acompanha a história da Comunhão Anglicana e ressurge sempre que a Igreja é chamada a discernir sua vocação diante dos desafios de um novo tempo. Definir o que significa ser anglicano nunca foi tarefa simples. Por isso, chamo este artigo de Notas para uma Introdução à Identidade Anglicana.
As reflexões apresentadas neste estudo partem de um lugar concreto. Escrevo como sacerdote IEAB, formado em diálogo com a teologia latino-americana e também profundamente marcado pelo estudo da história, da teologia e da espiritualidade do anglicanismo. É, portanto, a partir desse lugar eclesial que procuro ler os Chamados de Lambeth. Certamente, outras pessoas e igrejas da Comunhão Anglicana, em outros país e em diferentes culturas e contextos, oferecerão leituras igualmente legítimas do Chamado de Lambeth, destacando dimensões da identidade anglicana que, nestas notas, recebem menor atenção ou são abordadas de maneira distinta.
Creio que toda tentativa de responder à pergunta sobre a identidade do anglicanismo exige um retorno contínuo às nossas fontes. Antes de perguntarmos o que significa ser anglicano, somos convidados a recordar quem somos em Cristo. Toda reflexão sobre a identidade anglicana nasce de uma verdade tão simples quanto decisiva: a identidade anglicana encontra sua origem na identidade cristã.
Antes de sermos anglicanos e anglicanas, somos discípulos e discípulas de Jesus Cristo. Nossa identidade mais profunda não é confessional, mas batismal. É no Sacramento do Santo Batismo que recebemos nossa identidade mais profunda, pois nele somos incorporados ao Corpo de Cristo, participamos da vida da Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica de Cristo e somos enviados a participar da missão de Deus no mundo. A identidade episcopal anglicana, portanto, não existe para afirmar uma tradição em si mesma, mas para servir à missão de Cristo e testemunhar o Evangelho na comunhão da Igreja Católica de Cristo.
O Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana (2022) afirma:
"A tradição anglicana tem suas raízes numa história compartilhada comprometida com a catolicidade, a reforma, a missão internacional e o testemunho intercultural. Nossa unidade e esperança por uma unidade cristã mais profunda são expressas no Quadrilátero Chicago-Lambeth."
É particularmente significativo perceber que essa compreensão não constitui uma novidade na vida da IEAB. Já em 1960, na Carta Pastoral publicada por nossos bispos por ocasião do Primeiro Congresso Nacional da Igreja e incluída na obra “A Igreja Episcopal no País do Futuro”, encontramos uma autocompreensão notavelmente convergente:
"Pertencemos a uma Igreja Católica no seu testemunho à inteireza da verdade cristã, na sua continuidade apostólica, mediante o episcopado, e na sua lealdade aos Credos e aos Sacramentos da Igreja indivisa; e, ao mesmo tempo, evangélica na sua proclamação da Palavra de Deus e no seu realce à fé pessoal em Jesus Cristo, nosso divino Salvador."
Embora redigidos em tempos e contextos diferentes, esses dois textos testemunham uma surpreendente continuidade de visão acerca da vocação e da identidade anglicana. Ambos afirmam que nossa identidade nasce da fidelidade ao Evangelho recebido da Igreja Apostólica, continuamente renovado pelos Movimentos de Reforma do século XVI e colocado a serviço da missão de Deus no mundo. Neles ressoa a mesma convicção: A vocação da Comunhão Anglicana consiste em manter inseparavelmente unidas a catolicidade, o espírito da Reforma, a Comunhão e a Missão. À luz desse testemunho convergente, podemos reconhecer quatro pilares que alicerçam a identidade anglicana:
1) Catolicidade: pertencemos à Igreja una, santa, católica e apostólica de Cristo, permanecendo em continuidade com a fé apostólica, os Credos Ecumênicos, os Sacramentos e o Ministério Histórico do Episcopado;
2) Reforma: herdamos o impulso renovador dos movimentos da Reforma do século XVI, compreendendo que a Igreja é continuamente chamada à conversão e ao discernimento à luz do Evangelho (ecclesia semper reformanda);
3) Comunhão (Koinonia/Sinodalidade): vivemos a unidade que o Espírito Santo realiza no Corpo de Cristo. Essa comunhão torna-se visível na vida sacramental, na sinodalidade, na colegialidade episcopal, nos Instrumentos da Comunhão e no reconhecimento mútuo entre as igrejas da comunhão Anglicana, preservando a unidade na diversidade;
4) Missão/Testemunho intercultural/Marcas da Missão/Discipulado: participamos da Missio Dei, anunciando Jesus Cristo em palavras e ações. Dessa comunhão nasce uma missão que se encarna nas diferentes culturas e testemunha o Evangelho em todo o mundo.
Esses quatro pilares não constituem apenas características da tradição anglicana; juntos, eles delineiam uma verdadeira espiritualidade eclesial.
Embora este não seja o foco deste estudo, vale registrar uma observação significativa. O arcebispo Rowan Williams, em seu livro “Anglican Identities”, emprega deliberadamente a palavra identidades no plural. Com isso, ele não pretende negar a existência de uma identidade anglicana comum, mas evidenciar que o anglicanismo se expressa como um verdadeiro “mosaico” de tradições, experiências e contextos. A unidade da Comunhão Anglicana não repousa sobre a uniformidade, mas sobre uma herança compartilhada, continuamente recebida, discernida e vivida nas mais diversas culturas.
A identidade anglicana, portanto, não constitui uma realidade monolítica, mas uma “comunhão de identidades”. Essa Comunhão foi profundamente moldada pela tradição da Igreja antiga, pelo legado dos movimentos da Reforma do século XVI e, ao longo dos séculos, enriquecida pelo movimento missionário, pelo movimento litúrgico e pelo compromisso ecumênico, tornando-se uma tradição viva, continuamente renovada pelo Espírito Santo. Desse modo, podemos afirmar que a identidade anglicana não é um fim em si mesma, nem uma identidade confessional fechada sobre si. Ela é uma maneira de viver a identidade cristã recebida no Sacramento do Santo Batismo, continuamente alimentada na celebração da Santa Eucaristia, aprofundada na comunhão da Igreja e colocada, em permanente fidelidade ao Evangelho, a serviço da Missio Dei. Ser anglicano(a) é, em última análise, aprender a seguir Jesus Cristo na comunhão da Igreja, acolhendo a riqueza da tradição, discernindo continuamente a ação do Espírito Santo e testemunhando o Evangelho com fidelidade, humildade e esperança em cada tempo e lugar.
2. O Ethos Anglicano em Solo Brasileiro: A IEAB - Firmada em Jesus Cristo e enviada em missão ao povo brasileiro
Há verdades tão simples que corremos o risco de esquecê-las. Uma delas é que, somos anglicanos e anglicanas brasileiros. Se as raízes históricas, espirituais, litúrgicas e teológicas da tradição anglicana se encontram nas Ilhas Britânicas, essa herança chegou ao Brasil por diferentes caminhos: inicialmente, pela presença das capelanias britânicas; posteriormente, pela ação missionária, sobretudo de missionários e missionárias da Igreja Episcopal dos Estados Unidos e, em algumas regiões, também de missionários da Igreja Anglicana do Japão. Contudo, foi no solo brasileiro, em diálogo com sua história, sua cultura e seu povo, que essa herança floresceu, adquirindo um rosto próprio na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
À luz dessa realidade, somos convidados a acolher o Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana, deixando-nos interpelar por ele numa atitude permanente de discernimento, para que a riqueza de nossa tradição dialogue continuamente com a realidade brasileira.
A história recente da IEAB também testemunha essa mesma convicção. O “Documento de Base” da Conferência Nacional de Lideranças, publicado nas Atas da XX Reunião do Sínodo Extraordinário, em julho de 1983, afirmava que somos "uma comunidade cristã à procura de sua participação na missão de Deus no Brasil e de sua identidade como Igreja brasileira". Quatro décadas depois, essa afirmação permanece extraordinariamente atual. Ela nos recorda que a identidade da IEAB não é uma realidade acabada, nem uma simples reprodução dos modelos inglês, norte-americano ou japonês, mas uma vocação que se aprofunda continuamente à medida que participamos da missão de Deus em nosso país, vivendo plenamente nossa identidade como uma igreja autenticamente brasileira e autenticamente episcopal anglicana.
É nesta realidade que vivemos nossa identidade anglicana, nosso jeito de ser, isto é, o ethos anglicano, e nosso modo de ser Igreja Episcopal, em comunhão com toda a Comunhão Anglicana, e a serviço da missão de Deus no mundo.
Compreendida dessa maneira, a identidade anglicana afasta toda forma de confessionalismo e recorda que a IEAB, conforme proclama sua própria Constituição, existe para "disseminar e testemunhar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo os princípios da Comunhão Anglicana". Sua vocação, portanto, não consiste em voltar-se para si mesma, mas em participar da Missio Dei, anunciando as Boas-Novas do Reino de Deus.
Semelhante compreensão encontra uma profunda expressão na teologia do arcebispo Michael Ramsey. Para ele, a Igreja existe para apontar continuamente para Cristo. Instituída e enviada pelo próprio Senhor, a Igreja torna presente no mundo o anúncio da Encarnação, da Cruz e da Ressurreição. Sua vocação fundamental é dar testemunho de Deus revelado em Jesus Cristo, conduzindo homens e mulheres ao encontro daquele que é o Esposo da Igreja. Como João Batista, a Comunhão Anglicana existe para apontar para Outro e não para si mesma, para que todos encontrem, em Cristo, a reconciliação e o vínculo da paz. Por isso, o arcebispo Ramsey pôde afirmar, de maneira memorável, que "a Igreja é a única sociedade na terra que existe para o benefício daqueles que não são seus membros".
3. A identidade anglicana é profundamente missionária: participação na Missio Dei
O Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana reafirma, desde suas primeiras linhas, uma das convicções centrais da fé cristã: A Igreja é o fruto da missão redentora de Deus através do Verbo encarnado (Romanos 12. 5; Gálatas 3.26-28). A missão não pertence à Igreja, nem tem nela sua origem. Ela nasce do próprio Deus, que chama, reúne e envia seu povo para participar de sua obra reconciliadora no mundo. Por isso, a identidade anglicana não pode ser compreendida como um fim em si mesma, mas como participação permanente na missão do Pai, realizada pelo Filho e comunicada no poder do Espírito Santo.
Essa compreensão impede toda forma de autorreferencialidade e recorda que a Igreja existe para servir ao Evangelho de Jesus Cristo. Quanto mais participa da Missio Dei, mais plenamente a Igreja se torna aquilo que é chamada a ser.
Um dos apelos mais significativos da Conferência de Lambeth de 2022 consiste precisamente em "Revitalizar o Compromisso do Anglicanismo com as Cinco Marcas da Missão". O documento conclama: "Apelamos a todos os bispos e bispas a liderar suas dioceses em uma reafirmação e novo compromisso com as Cinco Marcas da Missão".
Esse apelo revela que as Cinco Marcas da Missão não constituem apenas um programa pastoral ou um conjunto de prioridades estratégicas. Elas expressam a própria vocação da Comunhão Anglicana e oferecem uma síntese concreta da identidade missionária que compartilhamos. Somos chamados(a) a proclamar a Boa-Nova do Reino de Deus; ensinar, batizar e formar novos discípulos e discípulas; responder às necessidades humanas com amor; transformar as estruturas injustas da sociedade, promovendo a justiça, a paz e a reconciliação; e salvaguardar a integridade da criação, sustentando e renovando a vida da terra.
Assumir as Cinco Marcas da Missão significa reconhecer que elas não descrevem apenas aquilo que a Igreja faz, mas também aquilo que ela é chamada a ser. Elas moldam nossa espiritualidade, orientam nosso discernimento pastoral e oferecem uma expressão concreta da identidade de pessoas anglicanas chamadas a participar da Missio Dei. Renovar o compromisso com essas cinco marcas significa, ao mesmo tempo, renovar nossa própria compreensão da identidade anglicana.
Em última análise, ser anglicano(a) é participar da Missio Dei. Alimentada pela Palavra e pelos Sacramentos, fortalecida na comunhão da Igreja e enviada ao mundo pelo Espírito Santo, a Comunhão Anglicana existe para anunciar Jesus Cristo, servir ao próximo, promover a justiça e a paz, cuidar da criação e testemunhar, em cada tempo e lugar, o amor reconciliador de Deus revelado em Jesus Cristo.
4. A identidade anglicana é eucarística: "A Igreja é mais plenamente ela mesma quando celebra a Eucaristia"
Embora o Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana não apresente explicitamente uma eclesiologia eucarística (o que considero uma de suas poucas fragilidades), sua compreensão da Igreja somente pode ser plenamente entendida à luz de uma sólida teologia e eclesiologia eucarística.
É na Palavra proclamada e nos Sacramentos do Santo Batismo e da Santa Eucaristia que a Igreja continuamente recebe sua identidade e é renovada na graça de Cristo. Por essa razão, a Comunhão Anglicana jamais compreendeu sua unidade como fruto de uma estrutura meramente administrativa, institucional ou canônica. Não possui um governo central nem uma autoridade jurídica universal que vincule todas as suas províncias. Sua comunhão nasce da participação na mesma fé apostólica, da vida sacramental compartilhada e da missão comum recebida de Cristo. Como afirma o Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana:
"As igrejas Membros da Comunhão Anglicana são definidas em relação à sua comunhão entre elas e com os Instrumentos da Comunhão. Nosso batismo comum nos chama todo o povo de Deus a uma vida de ministério a serviço do Senhor Jesus Cristo. Afirmamos um ministério ordenado comum de acordo com a tríplice ordem de diáconos e diáconas, sacerdotes (presbíteros/as) e bispos/as. Formada em comunidade litúrgica, alimentados/as por Palavra e sacramento, nos voltamos como testemunhas do Senhorio de Cristo no mundo".
À luz dessa compreensão, a comunhão entre as províncias anglicanas é sustentada pelo Batismo comum, pela celebração da mesma Eucaristia, pela profissão da fé da Igreja una, santa, católica e apostólica, expressa nas Sagradas Escrituras, nos Credos Ecumênicos, nos Sacramentos e no ministério apostólico de bispos e bispas, presbíteros(a), diáconos(a). Como recordava Michael Ramsey, "a Comunhão Anglicana é apenas uma parte da Igreja Católica". Sua vocação não consiste em existir para si mesma, mas em permanecer fiel à fé apostólica, fortalecer a comunhão entre suas Igrejas e servir, com humildade, à unidade visível da Igreja de Cristo.
Sua unidade nasce da comunhão sacramental eucarística: “É na participação da Eucaristia que a identidade da Igreja encontra sua expressão mais plena. A celebração eucarística, porém, não apenas manifesta quem a Igreja é; ela também revela aquilo que a Igreja existe para realizar: unir mulheres e homens a Cristo e uni-los uns aos outros. Essa é a própria missão da Igreja.(...) Entretanto, uma vez que a Eucaristia é «o sacramento da Igreja» e «o modelo da Igreja», ela também ilumina a compreensão da própria estrutura da Igreja. É na celebração da Eucaristia que se revela a configuração autenticamente eclesial da Igreja: na Eucaristia, a Igreja manifesta de modo mais pleno a sua própria identidade, e é ali que encontram expressão os papéis, os ministérios, os carismas e as atitudes que caracterizam o Povo de Deus”. (The Ecclesial Nature of the Eucharist: A Report by the Joint Study Group of the Roman Catholic Church in Scotland and the Scottish Episcopal Church. 1973).
Na celebração eucarística, Cristo reúne seu povo, reconcilia as diferenças, alimenta a comunhão e envia novamente a Igreja para a missão. Nesse sentido, é importante destacar o lugar singular que a liturgia ocupa na identidade anglicana. O Livro de Oração Comum constitui um dos mais preciosos legados espirituais da nossa tradição. Muito mais do que um livro de celebrações, ele expressa nossa teologia, molda nossa espiritualidade e forma nossa identidade eclesial. Pela oração comum (lex orandi), somos continuamente conduzidos à fé da Igreja (lex credendi) e enviados a testemunhá-la na vida cotidiana (lex vivendi). Por isso, a liturgia recebida no LOC não é apenas um patrimônio histórico a ser preservado, mas um dom precioso que continua a formar nosso modo de crer, de celebrar e de viver o Evangelho. Ela constitui um dos pilares fundamentais da identidade anglicana e um dos vínculos mais profundos de comunhão entre as Igrejas da Comunhão Anglicana.
5. A sinodalidade como forma de viver a identidade anglicana
Ao longo de todo o Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana, a palavra comunhão (koinonia) ocupa um lugar central. A identidade anglicana não é apresentada como uma realidade estática, mas como uma vocação a ser vivida na comunhão das Igrejas, no discernimento comum e na participação compartilhada na Missio Dei. Por isso, entre os apelos específicos formulados pelo documento, merece especial atenção o seguinte: "Pedimos ao Arcebispo de Cantuária e ao Conselho Consultivo Anglicano que criem um grupo de pesquisa independente para estudar as diversas formas de entender e encarnar a Comunhão (koinonia) nas províncias e tradições eclesiais".
De certo modo, esse apelo já começou a encontrar uma resposta concreta. Em 2023, o Conselho Consultivo Anglicano (ACC-18) confiou à Comissão Permanente Interanglicana sobre Unidade, Fé e Ordem (IASCUFO), composta por bispos, bispas, clérigos, clérigas e teólogos das diversas regiões da Comunhão Anglicana, a tarefa de aprofundar a reflexão sobre a comunhão anglicana, suas estruturas e seus processos de discernimento, buscando fortalecer a unidade em meio à diversidade.
Esse trabalho resultou na publicação das Propostas de Nairóbi–Cairo, no Advento de 2024, posteriormente ampliadas por um documento complementar divulgado na Quaresma de 2026. Atualmente em processo de recepção em toda a Comunhão Anglicana, essas propostas foram acolhidas pelo Conselho Consultivo Anglicano (ACC-19) como um instrumento para o discernimento contínuo da vida da Comunhão, e não como um documento concluído. Entre os encaminhamentos aprovados, destaca-se o convite para que as igrejas promovam um amplo processo de estudo, oração e discernimento acerca da relação entre primazia e sinodalidade, procurando aprender com a própria experiência histórica da Comunhão Anglicana, com o diálogo ecumênico e com a reflexão teológica já desenvolvida sobre esse tema. Na mesma resolução, o ACC-19 reconhece uma ampla convergência ao afirmar que a comunhão com a Sé de Cantuária continua sendo um elemento vital para qualquer nova articulação da identidade anglicana.
Essa comunhão, porém, não pode ser reduzida a vínculos institucionais ou a um sentimento de fraternidade. Ela torna-se visível quando a Igreja aprende a caminhar e a discernir em conjunto. Escutamos a Palavra de Deus. Escutamos a voz do Espírito Santo. Escutamos uns aos outros. É nesse processo de escuta mútua, oração e discernimento que a sinodalidade se torna realidade e a koinonia encontra sua expressão concreta.
Rowan Williams observa que "o primeiro movimento da Igreja não consiste em ouvir a si mesma nem em defender opiniões, mas em colocar-se, conjuntamente, diante da Palavra de Deus". Somente dessa escuta comum nasce um discernimento autenticamente cristão. Caminhar juntos significa reconhecer que ainda somos discípulos e discípulas em permanente aprendizagem. Cristo permanece, ao mesmo tempo, o Caminho que percorremos e a Meta para a qual somos conduzidos.
Por essa razão, a sinodalidade constitui uma dimensão essencial da identidade e da espiritualidade anglicana. Ela não se reduz a um método de governo nem a um conjunto de procedimentos institucionais. É, antes de tudo, uma maneira de viver o Evangelho em comunhão, aprendendo a discernir juntos a vontade de Deus na vida paroquial, diocesana, provincial e em toda a Comunhão Anglicana. Somos chamados a aprofundar continuamente sua compreensão e a cultivá-la como um modo de ser igreja, fortalecendo nossa comunhão, nosso testemunho e nossa participação na Missio Dei. Como observa Rowan Williams:
"Quando a sinodalidade é compreendida apenas como um princípio abstrato de administração da Igreja, ela corre o risco de tornar-se pouco mais do que um sistema de governo representativo artificialmente adaptado à realidade eclesial. É preferível compreendê-la como uma atitude espiritual, um estilo de vida e um conjunto de hábitos que tornam fecundo qualquer modelo de governo da Igreja, precisamente porque orientam esse governo para o cuidado do Corpo de Cristo e, consequentemente, para a missão da Igreja no mundo".
Assim compreendida, a sinodalidade manifesta-se concretamente:
A) na participação de todo o povo de Deus na adoração e na celebração da Santa Eucaristia;
B) na corresponsabilidade batismal pela vida pastoral, missionária e pelo sustento da Igreja;
C) No princípio da eclesiologia anglicana: o bispo ou a bispa em Concílio, isto é, a presidência episcopal e o governo sinodal;
D) na colegialidade entre bispos e bispas;
E) na consulta permanente ao clero e ao povo de Deus;
F) no discernimento comunitário sob a ação do Espírito Santo.
Como também recorda Rowan Williams: "Os anglicanos sempre privilegiaram aquilo que poderíamos chamar, de modo bastante simples, de um modelo conciliar de vida e de governo da Igreja. Após a ruptura com Roma, o lugar reservado aos leigos variou significativamente ao longo do tempo. Do mesmo modo, sempre houve certa relutância em conferir poderes efetivamente decisórios a organismos supradiocesanos. Por isso, a tradição anglicana enfatizou muito mais a consulta, o discernimento compartilhado e a comunhão de experiências do que a centralização da autoridade".
Em última análise, a sinodalidade não é um tema entre outros, nem uma simples forma de organização eclesiástica. Ela constitui uma maneira propriamente anglicana de viver a comunhão recebida de Cristo. Caminhando juntos, escutando juntos e discernindo juntos, a Igreja torna visível a koinonia que recebe do Senhor e participa, com renovada fidelidade, da Missio Dei. Dessa forma, a sinodalidade deixa de ser apenas um princípio de governo para tornar-se uma expressão concreta da identidade e da espiritualidade anglicanas.
6. Os Instrumentos da Comunhão: a serviço da koinonia
Os quatro Instrumentos da Comunhão não constituem um governo central da Comunhão Anglicana nem exercem jurisdição sobre suas províncias. Sua finalidade é preservar, fortalecer e tornar visível a comunhão entre Igrejas autônomas, chamadas a viver em interdependência. O Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana recorda:
"Os Anglicanos e Anglicanas, portanto, acreditam na forma visível e institucional da Igreja. Cada província da Comunhão Anglicana é autônoma e chamada a viver de forma interdependente. Quatro Instrumentos da Comunhão foram desenvolvidos para expressar a interdependência anglicana. Esses instrumentos são: i. O Arcebispo de Cantuária; ii. A Conferência de Lambeth; iii. O Conselho Consultivo Anglicano; e iv. O Encontro dos Primazes".
O surgimento desses Instrumentos acompanha o crescimento da própria Comunhão Anglicana. À medida que novas igrejas/províncias foram sendo constituídas em diferentes culturas e continentes, tornou-se necessário criar espaços permanentes de encontro, oração, consulta e discernimento comum. Sua finalidade nunca foi uniformizar as Igrejas, mas favorecer a comunhão na diversidade e fortalecer sua participação compartilhada na Missio Dei.
Nessa perspectiva, a Sé de Cantuária ocupa um lugar singular. A comunhão com a Sé de Cantuária identifica historicamente as igrejas/províncias que integram a Comunhão Anglicana, enquanto o ministério do Arcebispo(a) de Cantuária exerce um serviço de convocação, escuta, diálogo e reconciliação. Trata-se de um ministério de unidade, e não de jurisdição; um ministério que procura manter reunidas Igrejas diversas, ajudando-as a discernir juntas a vontade de Deus.
Como observa Rowan Williams, a sinodalidade não se reduz a uma forma de organização institucional. Ela nasce da disposição de escutar a Palavra de Deus, acolher a experiência do outro e discernir comunitariamente a ação do Espírito Santo. Os Instrumentos da Comunhão existem precisamente para tornar possível esse exercício permanente de comunhão. Eles favorecem:
A) o discernimento comum;
B) a consulta recíproca;
C) a escuta mútua;
D) a colegialidade episcopal;
E) a amizade e companheirismo entre as Igrejas;
F) a participação compartilhada na Missio Dei.
Sua autoridade não nasce do poder, mas da confiança, da recepção mútua e do compromisso comum com o Evangelho. Mais do que organismos administrativos, os Instrumentos da Comunhão constituem sinais visíveis da koinonia que une as igrejas da Comunhão Anglicana. Eles recordam continuamente que nenhuma província caminha sozinha, mas que todas são chamadas a discernir, testemunhar e servir juntas, permanecendo fiéis à fé apostólica e abertas à ação renovadora do Espírito Santo.
7. Uma espiritualidade enraizada na comunhão e encarnada na vida
A identidade anglicana não é sustentada apenas por documentos, cânones ou instituições. Ela é continuamente cultivada através de uma espiritualidade de comunhão. Essa espiritualidade manifesta-se na:
A) oração comum (LOC);
B) celebração litúrgica;
C) escuta da Palavra;
D) vida sacramental;
E) hospitalidade e Diaconia;
F) amizade cristã;
G) reconciliação;
H) discernimento comunitário;
I) consulta permanente.
8. Quando a tradição anglicana fala com sotaque brasileiro
Conforme mencionei no início deste ensaio, estas notas também nascem de um lugar muito concreto. Escrevo como uma pessoa parda, nordestina, nascida no Ceará e residente em São Paulo há várias décadas. Já vivi mais tempo no sudeste brasileiro do que em minha terra natal; ainda assim, minhas raízes permanecem profundamente fincadas no solo sagrado do Nordeste, em sua rica cultura, em sua religiosidade e na memória de seu povo. Venho de uma família de Quixeramobim, profundamente enraizada na tradição católica romana, cuja experiência de fé marcou os primeiros passos da minha caminhada cristã. Minha história pessoal traz as marcas da própria formação do povo brasileiro. Em minha família encontram-se ancestrais indígenas, portugueses e pessoas negras submetidas à escravidão. Reconheço, portanto, que minha maneira de ler e, sobretudo, de viver a tradição episcopal anglicana também é atravessada pela história, pela cultura e pela experiência humana que moldaram o Brasil.
Enquanto escrevia estas páginas, encontrei o excelente livro da escritora brasileira Beatriz Bueno, Parditude: um guia para te resgatar do limbo racial. A leitura da obra levou-me a revisitar os escritos de Darcy Ribeiro, especialmente O Povo Brasileiro. Embora situados em campos distintos, ambos ajudam a compreender que a identidade brasileira não pode ser reduzida a uma única matriz cultural. Ela nasce do encontro, muitas vezes atravessado pela violência, pela escravidão, pela dor e pela desigualdade, entre povos indígenas, africanos escravizados, colonizadores europeus e, posteriormente, diversos grupos de imigrantes. Dessa complexa e, por vezes, dolorosa história, formou-se um povo profundamente plural, cuja riqueza cultural continua a ser construída pelo encontro, pelo diálogo e pela convivência entre diferentes tradições.
Creio que algo semelhante pode ser afirmado, guardadas as devidas diferenças, sobre a experiência do anglicanismo brasileiro. A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil não é uma simples reprodução do anglicanismo inglês, norte-americano ou japonês. Recebendo a mesma fé apostólica, a mesma tradição litúrgica e a mesma comunhão eclesial, foi progressivamente enriquecida pela história, pela cultura e pelos desafios do povo brasileiro. O prefácio da edição de 1984 do Livro de Oração Comum reconhecia, com gratidão: "Esta liturgia representa o que de melhor herdamos através da Igreja Episcopal dos Estados Unidos e da Inglaterra, acrescidos alguns ofícios opcionais". Essa afirmação testemunha com clareza nossas raízes históricas e nossa inserção na tradição litúrgica da Comunhão Anglicana.
Já a publicação da nova edição do Livro de Oração Comum da IEAB, em 2015, posteriormente reeditada em 2021, representa um marco significativo desse caminho. Conservando integralmente a tradição litúrgica anglicana e a comunhão eclesial recebidas, o novo LOC expressa essa mesma herança com um rosto autenticamente brasileiro. Sua linguagem mais inclusiva, a revisão de diversos textos litúrgicos, e a sensibilidade pastoral que orientou sua elaboração testemunham que a tradição anglicana permanece viva. A identidade da IEAB continua profundamente enraizada na tradição comum da Comunhão Anglicana, mas encontra, na cultura, na espiritualidade e na experiência do povo brasileiro, novas formas de anunciar o Santo Evangelho.
Essa realidade pode ser percebida também na própria composição de nossas comunidades. Vivemos em um país cuja história religiosa foi profundamente marcada, primeiro, pelo catolicismo romano e, nas últimas décadas, pelo extraordinário crescimento das igrejas evangélicas e pentecostais. Não surpreende, portanto, que uma parcela significativa das pessoas que hoje integram a IEAB, inclusive muitas clérigas e clérigos, tenha recebido sua formação cristã inicial em outras tradições eclesiais. Desde suas origens missionárias, essa sempre foi uma característica da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil. Pouquíssimos de nós nasceram em famílias episcopais anglicanas; a maioria chegou ao anglicanismo como fruto de um caminho de busca, oração e discernimento e acolhida.
Longe de representar uma fragilidade, essa diversidade constitui um dos dons que Deus concedeu à IEAB. Cada pessoa traz consigo riquezas espirituais, experiências pastorais, sensibilidades litúrgicas e formas de viver a fé que ampliam nossa compreensão do Evangelho. Contudo, acolher não significa apenas receber; significa também iniciar um processo de formação. A IEAB não existe apenas para acolher pessoas provenientes de diferentes tradições cristãs, mas para formar, em Cristo, uma única comunidade continuamente moldada pela oração comum, pela Palavra de Deus, pela vida sacramental e pela tradição viva da Igreja.
Em outras palavras, ao mesmo tempo em que a IEAB acolhe pessoas provenientes de diferentes tradições cristãs, ela também as convida a entrar cada vez mais profundamente na riqueza da espiritualidade, da eclesiologia, da liturgia e da missão anglicana. Daí a importância de revisitar continuamente as fontes do anglicanismo, aprofundar o estudo de sua história, de sua teologia e de sua espiritualidade, e reafirmar, em cada geração, a identidade anglicana, como nos convida o Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana (2022). Mais do que conhecer uma tradição, somos chamados a recebê-la, vivê-la e transmiti-la com fidelidade criativa, para que continue a florescer em nosso contexto brasileiro, permanecendo sempre enraizada no Evangelho de Jesus Cristo e aberta à ação do Espírito Santo.
Talvez seja justamente essa uma das expressões mais belas da identidade episcopal anglicana no Brasil. Permanecemos plenamente inseridos na tradição comum da Comunhão Anglicana, mas testemunhamos essa mesma fé com os acentos próprios da cultura brasileira, profundamente marcada pela diversidade, pela hospitalidade, pela criatividade e pela esperança. Nossa identidade não nasce da uniformidade, mas da comunhão; não da repetição de modelos estrangeiros, mas da fidelidade ao Evangelho vivido neste chão brasileiro.
Nesse sentido, talvez possamos afirmar que a IEAB é uma igreja missionária e de comunhão também em sua forma de receber pessoas. Como o próprio povo brasileiro, ela aprende continuamente a integrar diferentes histórias, culturas, memórias e experiências numa única comunidade reunida em torno da Palavra de Deus, da Mesa do Senhor e da missão reconciliadora de Deus. É precisamente nessa capacidade de acolher, discernir, integrar e transformar que a brasilidade também se torna um dom oferecido ao conjunto da Comunhão Anglicana.
A identidade episcopal anglicana não é apenas afirmada. Ela é aprendida. É praticada. É celebrada.
Ao longo destas páginas procurei apresentar algumas notas introdutórias sobre a identidade episcopal inspiradas pelo Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana. Quanto mais me debruçava sobre esse documento, cotejando-o com livros e textos de autores e autoras brasileiros, atas de sínodos e documentos da IEAB, mais me convencia de que a identidade anglicana não pode ser reduzida a uma definição doutrinária, a uma estrutura eclesiástica ou a uma herança histórica. Ela é, antes de tudo, uma forma de seguir Jesus Cristo. Aprende-se vivendo a vida da Igreja, celebrando sua liturgia, escutando a Palavra de Deus, participando dos Sacramentos, caminhando em comunhão e tomando parte na missão reconciliadora de Deus.
Em 2022, participei da Conferência de Lambeth na companhia de meus colegas bispos e bispas da Câmara Episcopal da IEAB. A Conferência ofereceu uma imagem viva dessa realidade. Bispas e bispos provenientes de numerosos países, acompanhados por seus cônjuges e por pessoas que serviam nas equipes de assessoria, reuniram-se trazendo diferentes idiomas, histórias, culturas e experiências eclesiais. Experimentávamos, diariamente, a extraordinária diversidade da Comunhão Anglicana. Naqueles dias, tive a graça de conversar com lideranças episcopais do Japão, de Angola, de Moçambique, de Portugal, da Coreia, de Mianmar, da Escócia, dos Estados Unidos, do Canadá, do México e de outros lugares. Cada igreja/província trazia consigo sua própria história, sua cultura, seus desafios e suas formas particulares de viver o Evangelho. Nenhuma província ou diocese era igual à outra. Entretanto, havia entre nós elementos claramente reconhecíveis de uma mesma tradição: a fé apostólica, o episcopado histórico, a oração litúrgica, a vida sacramental e o compromisso comum com a missão.
A vida comum durante aqueles dias também revelava as tensões que atravessam a Comunhão Anglicana. Alguns bispos, embora participassem plenamente dos estudos, orações e demais atividades da Conferência, optaram por não receber a Santa Comunhão durante as celebrações eucarísticas de toda a Conferência, em razão de divergências teológicas e pastorais existentes entre algumas províncias. Ainda assim, permanecíamos reunidos para rezar, escutar, discernir e caminhar juntos. Foi justamente essa experiência que me fez compreender, de modo ainda mais profundo, que a comunhão cristã não elimina as diferenças; ela nos chama a perseverar em Cristo, mesmo quando ainda buscamos, juntos, os caminhos da unidade.
Essa experiência ajuda-nos a compreender que as particularidades históricas, culturais, pastorais e espirituais das províncias não empobrecem a Comunhão Anglicana; ao contrário, fortalecem nossa identidade e, quando permanecem abertas à escuta, ao discernimento e à responsabilidade mútua, revelam algo da inesgotável riqueza do Corpo de Cristo.
À luz do Chamado de Lambeth e em diálogo com nossa realidade, torna-se igualmente necessário aprender, viver e celebrar nossa identidade como pessoas episcopais anglicanas brasileiras. Habitamos um país marcado por extraordinária riqueza cultural, profunda diversidade religiosa e graves desigualdades sociais. Nesse chão, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é chamada a receber a tradição comum da Comunhão e a testemunhá-la com um rosto verdadeiramente brasileiro. Somos a única província da Comunhão Anglicana constituída no Brasil e estamos em plena comunhão sacramental com a Sé de Cantuária. Essa singularidade não deve conduzir ao isolamento ou à autossuficiência, mas a uma consciência mais profunda de nossa responsabilidade missionária, ecumênica e pastoral.
Após o Sínodo da IEAB de 2018, nossa Província iniciou um amplo processo de escuta e discernimento comunitário para a elaboração de um novo planejamento pastoral. Nesse caminho, a pergunta reapareceu com força: quem somos nós? No capítulo dedicado à identidade, o documento provincial afirma:
“A identidade anglicana foi se construindo historicamente. O anglicano traz em sua identidade um ser católico, evangélico e protestante ao mesmo tempo”.
A formulação é simples, mas teologicamente densa. Ela recorda que nossa identidade não nasceu pronta nem permaneceu imóvel. Foi sendo moldada na história, na oração, nos conflitos, nas reformas, nos encontros missionários e no discernimento da Igreja. Nela convivem a continuidade católica, a centralidade evangélica de Jesus Cristo e das Sagradas Escrituras e o impulso reformador que chama continuamente a comunidade cristã à conversão.
No contexto brasileiro, essa herança assume um rosto próprio. O compromisso com as Cinco Marcas da Missão, com a justiça social, com a Teologia da Libertação, com a Teologia Integral da Missão e com as teologias latino-americanas, com a plena participação das mulheres em todos os Ministérios Ordenados e com a inclusão das pessoas LGBTQIA+ com o cuidado da criação, com a justiça ambiental, com a proteção de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis e com o discipulado intencional expressa a maneira como a IEAB procura viver, hoje, a mesma fé da Igreja una, santa, católica e apostólica. Trata-se de uma igreja episcopalmente liderada e sinodalmente governada; litúrgica em sua espiritualidade, católica em sua continuidade, reformada em sua permanente abertura à renovação do Evangelho, missionária em sua vocação e ecumênica em seu compromisso com a unidade da Igreja de Cristo.
Talvez por isso continue tão atual a observação de Roger Scruton ao afirmar que parte da genialidade do anglicanismo consiste em ter conseguido conservar, na mesma comunhão, anglo-católicos e evangélicos. A tradição anglicana sempre compreendeu que sua unidade não nasce da eliminação das diferenças, mas da comunhão em torno de Jesus Cristo. Essa mesma convicção encontra bela expressão no lema assumido pela IEAB por ocasião do Sínodo de 2018: "IEAB: muitas faces, muitos jeitos, um só Cristo".
Ao concluir estas reflexões, permanece em mim a convicção que acompanhou todo este estudo: a identidade anglicana não é uma realidade acabada nem um ponto de chegada, mas um caminho permanente de conversão ao Evangelho. Ela se forma na escuta atenta das Sagradas Escrituras, é alimentada pela graça dos Sacramentos, encontra expressão na oração e na liturgia da Igreja, amadurece na comunhão do Corpo de Cristo e se torna visível na participação da Missio Dei. Cada geração é novamente convidada a acolher esse dom, discerni-lo com humildade e encarná-lo com fidelidade criativa, permanecendo enraizada na fé apostólica e aberta à ação sempre renovadora do Espírito Santo. Ser uma pessoa episcopal anglicana significa, em última análise, aprender, a cada dia, a caminhar com Cristo, em comunhão com sua Igreja e a serviço de sua missão. É essa vocação que recebemos no Santo Batismo e reafirmamos no Rito Apostólico da Confirmação, quando renovamos publicamente nossa Aliança Batismal e assumimos, mais uma vez, o compromisso de seguir Jesus Cristo como seus discípulos e discípulas.
Por isso, creio que a identidade anglicana também se manifesta na fé que professamos, na tradição que recebemos, na história que nos formou, na liturgia que celebramos e nas instituições que sustentam a vida da Igreja. Tudo isso é verdadeiro e indispensável. Mas sua realidade mais profunda é outra: ela é, sobretudo, um dom do Espírito Santo e uma vocação continuamente recebida. Vai sendo formada em nós à medida que seguimos Jesus Cristo, permanecemos na comunhão de sua Igreja, celebramos a fé apostólica e participamos da Missio Dei para a vida do mundo. Esse é, afinal, o chamado permanente da IEAB e da Comunhão Anglicana: permanecer em Cristo, caminhar juntos na comunhão da Igreja Una, Santa Católica e Apostólica e servir, com alegria e esperança, à missão reconciliadora de Deus.
Observação: Estas notas foram compiladas não como um artigo acadêmico, mas, sobretudo, como uma partilha e uma provocação, com o propósito de contribuir para a leitura do Chamado de Lambeth sobre a Identidade Anglicana (2022) e de promover, a partir da realidade brasileira e da IEAB, um diálogo com as fontes da tradição anglicana. As obras e os documentos relacionados a seguir foram consultados durante a elaboração deste texto e são recomendados a quem desejar aprofundar o estudo do tema.
Fontes:
1) DIOCESE ANGLICANA DE SÃO PAULO. Os Chamados de Lambeth: A Igreja de Deus para o Mundo de Deus – caminhar, ouvir e testemunhar juntos. 2023. Disponível em: <https://www.dioceseanglicanasp.org.br/post/os-chamados-de-lambeth-a-igreja-de-deus-para-o-mundo-de-deus-caminhar-ouvir-e-testemunhar-juntos>.
2) MACQUARRIE, John. The Levy memorial lectures: 1989. Disponível em: <https://anglicanhistory.org/amramsey/macquarrie1990.html>.
3) BROWN, Will. Evangelical Catholicism: The ecclesiological vision of Archbishop Michael Ramsey (1). 2017. Disponível em: <https://livingchurch.org/covenant/evangelical-catholicism-the-ecclesiological-vision-of-archbishop-michael-ramsey/>.
4) WILLIAMS, Rowan. Synodalität und die anglikanische Tradition. 2022. Disponível em: <https://www.herder.de/communio/hefte/archiv/51-2022/4-2022/synodalitaet-und-die-anglikanische-tradition/>.
6) IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL. Constituição. 2016. Disponível em: <https://diocesemeridional.org.br/wp-content/uploads/2022/07/Constituição-IEAB-2016.pdf>.
7) INTERNATIONAL ANGLICAN-ROMAN CATHOLIC COMMISSION FOR UNITY AND MISSION (IARCCUM). The Ecclesial Nature of the Eucharist: A Report by the Joint Study Group of the Roman Catholic Church in Scotland and the Scottish Episcopal Church. 1973. Disponível em: <https://iarccum.org/archive/Scotland/1973_ecclesial-nature-of-the-eucharist.pdf>.
8) IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL. Atas da XX Reunião do Sínodo Extraordinário da IEAB. Julho de 1983.
9) A Igreja Episcopal no País do Futuro – Publicadora Ecclesia.
10) KICKHOFEL, Osvaldo. Notas para uma história da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Projeto memória. 1995. Porto Alegre, IEAB.
11) Revista Inclusividade n° 16. Anglicanismo e cultura brasileira.
12) ANGLICAN COMMUNION. Called to one hope, Standing Committee Resolution. 2026. Disponível em: <https://media.anglicancommunion.org/wp-content/uploads/2026/07/04140148/Standing-Committee-Resolution-ACC-19-FINAL-4-July-2026.pdf>.
13) SCRUTON, Roger. Our Church: A Personal History of the Church of England. Londres, Atlantic Books, 2013.
14) BAYCROFT, John. O jeito de ser anglicano. 1980. Disponível em: <https://share.google/qfHDXlmuAk4huUvTE>.
15) DIOCESE ANGLICANA DE SÃO PAULO. Algo em Comum - Uma introdução aos princípios e práticas do anglicanismo mundial. 2023. Disponível em: <https://share.google/DwWbPN7xYOVVuldaC>.
16) WILLIAMS, Rowan. Anglican Identities. Cowley Publications, 2004.
17) IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL. Plano estratégico provincial 2020-2023. 2020. Disponível em: <https://ieab.org.br/wp-content/uploads/2020/12/IEAB_Planejamento_2020_FINAL.pdf>.
18) MARQUES, Victor Hugo de Oliveira; VERGARA, Elias Mayer; SANTOS, Gisara Cunha dos. GT - Identidade anglicana: reflexões e desafios, Documento planejamento estratégico IEAB 2020-2031. 2019. Disponível em: <https://ieab.org.br/wp-content/uploads/2019/10/IDENTIDADE-ANGLICANA-.pdf>.
19) IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL. O pacto da Comunhão Anglicana, Terceira Minuta (“Ridley Cambridge”). 2019. Disponível em: <https://ieab.org.br/wp-content/uploads/2019/08/Ridley-Cambridge-Draft-090402_PT1.pdf>.





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