Por ocasião do mês do aniversário da Ordenação Feminina na IEAB
- dasp.comunicacao

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Mulheres e homens… e é muito bom assim.
Há “estórias” simples que, por vezes, revelam verdades profundas.
Uma antiga anedota brasileira conta que um gaúcho, orgulhoso de sua terra, dizia a um cearense:
— Bah, tchê! No Rio Grande do Sul só tem macho! Terra de homens fortes e valentes!
O cearense escutou com calma, sorriu discretamente e respondeu:
— Pois lá no Ceará é diferente…
Temos mulheres e homens.
E, olha… é muito bom assim.
Evidentemente, trata-se apenas de uma anedota.
E talvez justamente por isso ela nos ajude, com leveza e bom humor, a recordar algo importante. Foi precisamente no Rio Grande do Sul que aconteceram as primeiras Ordenações femininas na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
O Evangelho nos convida não à negação dos dons, mas ao reconhecimento da graça distribuída pelo Espírito Santo, a Divina Ruah, “a cada pessoa, visando um fim proveitoso” (1Cor 12.7).
Ao celebrarmos o aniversário da Ordenação Feminina na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, damos graças porque, ao longo do caminho, muitas mulheres ouviram o chamado de Deus e responderam com coragem, oração, estudo, discernimento e serviço fiel ao povo de Deus. E a IEAB, também em discernimento, reconheceu nesses chamados os sinais da graça divina.
Na tradição anglicana, a Ordenação nunca pertence à lógica do privilégio. Pertence ao mistério do chamado divino. Aprendi com um dos meus professores, o bispo Sumio Takatsu, que o Ministério Ordenado nasce da vocação, do chamado de Deus, do discernimento comunitário e da oração da Igreja.
Escrevendo no jornal Estandarte Cristão, em 1990, por ocasião das celebrações do centenário da IEAB, o saudoso bispo Sumio Takatsu deixou uma reflexão profundamente atual sobre vocação e ministério na vida da Igreja:
“O chamado vem do Senhor, mas a resposta vem da igreja, isto é, de todo o povo de Deus. Isso significa que alguns dos membros das nossas paróquias estão recebendo esse chamado (…); Por isso, às paróquias devem criar condições para que as pessoas possam ouvir melhor o chamado de Deus. Em outras palavras, a vocação surge onde há um laicato dedicado e instruído (…) O despertamento para a vocação vem de muitas formas. O envolvimento no trabalho da igreja e o convite para pensar no ministério ordenado são formas clássicas de despertar vocações. Há também a forma direta da igreja dizer ao indivíduo: precisamos de você.
A vocação é um processo contínuo. Do chamado à ordenação há passos de preparo e reconhecimento.”
Por isso, ver mulheres servindo como diáconas, presbíteras e bispas na IEAB, na Comunhão Anglicana e em várias Igrejas Cristãs, é uma dádiva e uma riqueza para toda a Igreja Católica de Cristo. Revela algo da abundância do Espírito Santo, que continua soprando onde quer, renovando a face da terra e chamando pessoas de diferentes histórias, culturas e experiências para o serviço do Reino de Deus.
Por ocasião da instituição da Arcebispa Sarah Mullally na Sé de Cantuária, ela recordou as palavras dirigidas pelo anjo a Bem-aventurada Virgem Maria:
“Porque para Deus nada é impossível.”
E concluiu sua homilia dizendo simplesmente:
“Eis-me aqui.”
Talvez exista uma profunda sabedoria nesse “Eis-me aqui”. Não como afirmação de poder. Mas como disponibilidade diante da graça.

A história da Igreja sempre conheceu tensões, resistências e tempos de recepção lenta. Ainda hoje existem, em alguns lugares da Comunhão Anglicana e em outras Igrejas cristãs, pessoas que não reconhecem o Ministério Ordenado feminino. Essa realidade continua a desafiar o caminho ecumênico e as relações no âmbito da própria Comunhão Anglicana, revelando as feridas ainda abertas dentro do cristianismo global.
Contudo, também é verdade que muitas Igrejas Cristãs herdeiras dos movimentos de reforma do século XVI têm encontrado, no pleno reconhecimento do Ministério Ordenado de mulheres e homens, sinais concretos de renovação, cuidado pastoral, inteligência espiritual e, sobretudo, fidelidade ao Evangelho de nosso Senhor, Jesus Cristo.
E é nossa convicção que a Igreja só é plenamente católica quando, a exemplo de Jesus Cristo, acolhe todas as pessoas batizadas em sua comunhão, incluindo, com oração, discernimento e sólida formação teológica, mulheres e homens no Ministério Ordenado para o serviço de todo o povo de Deus.
Na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, damos graças pela vida das mulheres que abriram caminhos, muitas vezes enfrentando incompreensões, silêncios e resistências, mas permanecendo fiéis à vocação recebida de Deus.
E talvez o testemunho mais bonito seja justamente este:a Igreja torna-se mais plenamente católica e mais plenamente Evangélica quando aprende a acolher, com humildade e reverência, os dons que o Espírito Santo distribui a todo o povo de Deus.
Mulheres e homens.
Servindo juntos.
Orando juntos.
Pregando o Evangelho em comunhão.
Presidindo a Santa Eucaristia, partindo o pão e abençoando o cálice da Salvação.
E, pela graça de Deus, é muito bom assim.
+ Cézar Alves





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