As têmporas — oração pelas vocações e ministérios da Igreja

Na tradição episcopal anglicana, as Têmporas são dias especialmente consagrados à oração pelas vocações e pelos ministérios da Igreja. Nosso próprio Livro de Oração Comum preserva essa antiga tradição e orienta:
“As têmporas devem ser observadas, sob a direção do(a) bispo(a), na semana antes de uma ordenação, como dias de oração por aquelas pessoas que serão ordenadas diáconas ou presbíteras” (Livro de Oração Comum — IEAB, p. 29).
Há algo profundamente significativo nessa orientação. Quando uma pessoa se aproxima da ordenação, a Igreja não a deixa caminhar sozinha até o altar. A comunidade inteira é chamada a acompanhá-la com sua oração. A vocação pode ser escutada no coração de uma pessoa, mas nunca pertence somente a ela. Deus chama; alguém escuta; a comunidade discerne; e toda a Igreja acompanha e ora.
As Têmporas constituem uma tradição muito antiga. Ligadas originalmente ao ritmo das estações, à terra e à gratidão pelos dons recebidos, foram progressivamente associadas à oração, ao jejum, ao discernimento vocacional e às ordenações. O LOC conserva inclusive o antigo ritmo desses dias:
“Tradicionalmente, as têmporas caem na quarta-feira, sexta-feira e sábado após o primeiro Domingo na Quaresma, depois de Pentecostes, depois do Dia da Santa Cruz (14 de setembro) e após o dia 13 de dezembro” (LOC/IEAB, p. 29).
Esse ritmo distribuído ao longo do Ano Cristão nos recorda uma verdade simples e, ao mesmo tempo, fundamental: a Igreja não cria a sua própria vida. Ela a recebe.
Recebe de Cristo sua identidade, sua missão e seus ministérios. Por isso, antes de perguntarmos de que ministros a Igreja necessita, somos convidados a perguntar: o que o Espírito está dizendo à Igreja e quem Deus está chamando para servir ao seu povo neste tempo e neste lugar?
Vocação cristã não é simplesmente a descoberta de alguma coisa que desejamos fazer. É, antes, a descoberta de que nossa vida foi alcançada por um chamado que nos precede.
Por isso, nenhuma vocação pertence somente à pessoa que a recebeu. Ela nasce no Corpo de Cristo, é discernida no Corpo e é oferecida para a edificação desse mesmo Corpo.
Quando alguém se prepara para uma ordenação, portanto, não é somente essa pessoa que deve rezar. Toda a Igreja é chamada à oração e ao acompanhamento. A vocação é discernida e amadurece no interior de uma comunidade que intercede, sustenta e caminha junto. Essa dimensão comunitária aparece de maneira particularmente bela na Litania para Ordenações do Ordinal Anglicano, quando toda a assembleia suplica: “Para que N reconheça não estar sozinho(a) e para que encontre irmãs e irmãos que se alegrem e trabalhem ao seu lado; oramos a ti, Senhor”, respondendo: “Que juntamente com ele(a) possamos orar e trabalhar”. A Igreja reconhece, assim, que ninguém é chamado ou enviado isoladamente: acompanha aqueles e aquelas que estão em processo de formação, discerne com eles sua vocação e os sustenta com sua oração.
E essa oração não termina com a ordenação. Na tradição episcopal anglicana, em cada celebração da Santa Eucaristia, a Igreja continua a interceder pelas pessoas ordenadas e por todo o povo de Deus, reconhecendo que todos necessitamos continuamente da graça que sustenta nossa vocação e nosso ministério. Nas Orações do Povo e Intercessões Eucarísticas Dominicais, O LOC nos convida a orar: “Nós te pedimos pelos bispos e bispas (especialmente nosso(a) Bispo(a) N), presbíteros e presbíteras (especialmente N), diáconos e diáconas (especialmente N) e por todo o povo de Deus. No poder do Espírito Santo, suplicamos-te que nos ouças, ó Bom Senhor”. Do mesmo modo, a Litania para Ordenações intercede “por todas as pessoas fiéis, em sua vocação e ministério, para que te sirvam com verdadeira alegria e coragem”. Assim, das Têmporas à liturgia dominical, do discernimento vocacional ao exercício cotidiano do ministério, a oração da Igreja acompanha continuamente aqueles e aquelas que Deus chama, forma e envia, juntamente com todo o povo batizado, para a vida e a missão do mundo.
As Têmporas nos protegem, assim, de uma compreensão excessivamente individual do ministério. Ministério não é posse. Não é privilégio. Não é simplesmente cargo, função ou realização pessoal. O Ministério Ordenado é dom recebido e vida oferecida. O ministério pertence primeiro a Cristo. É Cristo quem serve sua Igreja; é Cristo quem reúne seu povo; é Cristo quem ensina, reconcilia, alimenta e envia. Todo ministério cristão, leigo ou ordenado, somente encontra seu sentido quando se torna participação nesse único ministério de Cristo.
Por isso, a oração das Têmporas não pede simplesmente pessoas competentes. Pede algo muito mais profundo: “verdade de doutrina” e “santidade de vida” (LOC/IEAB, p. 501).
Porque a Igreja não necessita apenas de pessoas capazes de falar sobre Deus. Necessita de pessoas cuja vida tenha sido suficientemente tocada por Deus para que possam ajudar outras a reconhecê-lo. Conhecimento sem oração pode tornar-se árido. Autoridade sem serviço pode transformar-se em poder. Zelo sem discernimento pode ferir justamente aqueles que desejamos servir.
O ministério cristão precisa, portanto, retornar continuamente ao lugar de onde nasceu: a comunhão com Cristo. E as Têmporas não pertencem somente ao ministério ordenado. O próprio LOC amplia o horizonte dessa oração:
“As têmporas também podem ser observadas quando não houver ordenações próximas, como dias mais genéricos de oração por novas vocações, e também por aquelas pessoas que servem à Igreja em seus variados ministérios, sejam leigos ou ordenados” (LOC/IEAB, p. 29).
Essa pequena passagem contém uma importante compreensão eclesiológica: a Igreja inteira é ministerial porque a Igreja inteira é chamada.
Rezamos, portanto, pelas pessoas que discernem uma vocação; por postulantes e candidatos às Sagradas Ordens; por diáconos, presbíteros e bispos. Mas rezamos igualmente por catequistas, educadores, ministros e ministras leigas, músicos, lideranças comunitárias, pessoas que servem nas juntas paroquiais, UMEAB, sodalícios, Irmandades e Ordens Religiosas e por tantas pessoas cujo serviço, muitas vezes silencioso, sustenta diariamente a vida e a missão da Igreja. Talvez seja justamente por isso que precisamos recuperar a espiritualidade das Têmporas.
Num tempo em que podemos ser tentados a transformar vocação em projeto pessoal, ministério em posição e Igreja em instituição preocupada consigo mesma, as Têmporas nos devolvem ao silêncio, à oração e ao discernimento.
E, nesse silêncio, uma pergunta volta a nos alcançar: Senhor, a que nos chamas e para quem nos envias?
Talvez a primeira tarefa da Igreja diante das vocações não seja produzir respostas, mas aprender novamente a escutar: escutar Deus, escutar as Escrituras, escutar a comunidade e escutar também as dores e esperanças do mundo ao qual somos enviados.
Por isso, nestes dias de Têmporas, nossa oração não é apenas para que Deus envie novas pessoas aos ministérios da Igreja. Rezamos para que a própria Igreja permaneça disponível ao Espírito: que tenha olhos capazes de reconhecer os dons que Deus suscita; generosidade para acompanhá-los; sabedoria para discerni-los; e humildade para recordar que nenhum ministério existe para si mesmo.
E rezamos, sobretudo, para que aqueles e aquelas que são chamados jamais se esqueçam de que servir à Igreja significa aprender, dia após dia, a oferecer a própria vida com Cristo e como Cristo, para a vida do mundo.
Porque toda vocação começa como graça, amadurece na comunhão e encontra sua verdade no serviço. Talvez, ao final, seja isso que as Têmporas nos ensinem: a Igreja não pede simplesmente a Deus mais clérigos e clérigas; pede que o Espírito faça de todos nós um povo disponível. Um povo capaz de escutar. Um povo disposto a servir. Um povo que possa novamente dizer: “Aqui estou. Envia-me, Senhor”.
“Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo” (1 Coríntios 12.4-5).
“Doador de todo o bem, que por teu Espírito Santo tens estabelecido várias ordens na tua Igreja, concede a tua graça, rogamos-te humildemente, a quem atendeu o chamado aos ofícios e ministérios; enche tais pessoas com a verdade de tua doutrina e reveste-as de santidade de vida, para que te sirvam com fidelidade, para glória do teu grande Nome e edificação de tua Santa Igreja; mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém!” (Livro de Oração Comum — IEAB, p. 501).






Comentários