O Movimento Anglo-Caótico e a Catolicidade da Igreja
- dasp.comunicacao

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As Igrejas da Comunhão Anglicana professam a fé católica em conformidade com os Credos Ecumênicos, especialmente o Credo Apostólico e o Credo Niceno-Constantinopolitano, nos quais reafirmamos a catolicidade da Igreja de Cristo ao proclamar: “Cremos na Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica”.
Todavia, é importante recordar que a catolicidade da Igreja não é apenas uma afirmação histórica. Ela é, sobretudo, uma forma de viver a fé cristã em pleno seguimento de Jesus Cristo; de crer, de celebrar os sacramentos, de servir e de caminhar em comunhão com todo o santo povo de Deus.
Uma das expressões mais belas e teologicamente densas do anglicanismo é o anglo-catolicismo. Ainda assim, é preciso reconhecer com honestidade que existe uma diferença real, e muito grande, entre ser anglo-católico e simplesmente viver um anglicanismo anglo-caótico, conforme algumas expressões que, de tempos em tempos, surgem também no contexto brasileiro. São manifestações que, não raramente, demonstram pouco apreço pela história da IEAB e pela teologia ecumênica latino-americana, agem por vezes sem a necessária comunhão com os bispos e bispas e acabam desconsiderando a riqueza da cultura brasileira. Como se práticas, ritos e costumes importados de outros contextos e épocas fossem, por si mesmos, mais autênticos ou superiores ao nosso modo próprio de ser Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
É importante destacar que o anglo-catolicismo nasce na Igreja da Inglaterra do século XIX, especialmente no contexto do Movimento de Oxford, como uma busca de renovação espiritual, teológica e eclesial, marcada pelo desejo de fidelidade e continuidade viva da fé católica histórica. Trata-se de um movimento que possui raízes profundas e que contou, desde as suas origens, com teólogos, sacerdotes, bispos e pessoas do laicato, mulheres e homens de notável formação intelectual, profunda vida devocional e rica espiritualidade.
O movimento anglo-católico, desde os seus primórdios, ancora-se nas Escrituras, respira a Tradição da Igreja Antiga, tendo como referências os Santos Padres, e encontra sua voz mais plena na liturgia católica reformada, celebrada com reverência e em conformidade com o Livro de Oração Comum. Não se limita à superfície das formas nem à elegância dos gestos. Não se reduz a tecidos, rendas, velas, ornamentos ou a uma execução esteticamente impecável do rito. Todos esses elementos são importantes, mas não constituem, por assim dizer, a “alma” da compreensão católica da Igreja.
Tampouco o anglo-catolicismo consiste em transformar a Igreja em um museu ou em cultivar um apego desmedido a costumes, práticas e tradições com “t” minúsculo, como se fosse possível transplantar para o presente modelos históricos que pouco ou nada têm a ver com a história, a missão e a vocação da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil.
A consciência da catolicidade é, antes de tudo, uma espiritualidade que molda o modo de existir da Igreja. É a consciência de ser fiel seguidora de Jesus Cristo, uma Igreja que acolhe todas as pessoas, todos os povos, nações e etnias com plena dignidade.
E nunca é demais relembrar que a tradição anglicana não entende catolicidade como sinônimo de submissão ao juízo da Igreja de Roma. “Católico” ou “Igreja Católica” significa estar enraizado na fé apostólica, nas Escrituras, nos Credos Ecumênicos, na celebração dos sacramentos instituídos por Cristo e no episcopado em sucessão histórica. A Igreja de Roma não é a “Igreja Católica inteira”; ela é uma Igreja particular, antiga e venerável, uma Sé histórica importante para a maioria dos cristãos, com a qual mantemos diálogo teológico e cooperação ecumênica. O mesmo se pode dizer em relação às demais Igrejas cristãs. Todas elas possuem sua própria história, tradições litúrgicas e de culto, doutrinas, disciplina e produção teológica. Todas são parte da Igreja de Cristo e, em diferentes graus de comunhão, compartilham conosco a fé no Deus Trino e o sacramento do Batismo, verdadeiro sacramento da unidade. Como proclama a Escritura, há “um só Senhor, uma só fé, um só batismo” (Efésios 4.5).
Recordamos ainda que a tradição anglicana, no Artigo XIX dos Trinta e Nove Artigos de Religião, compreende a Igreja de Cristo da seguinte forma: “A Igreja visível de Cristo é uma congregação de fiéis, na qual é pregada a pura Palavra de Deus, e são devidamente ministrados os Sacramentos conforme a instituição de Cristo”. Sem negar a importância histórica das veneráveis e antigas Sés Apostólicas de Roma, Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém, compreendemos, conforme a definição dos Artigos de Religião, que a verdadeira Igreja Católica de Cristo se reconhece não por preferências pessoais, modismos, disputas teológicas, projetos de poder ou pretensões de dominação, mas pela fidelidade ao Evangelho e à Tradição Apostólica, pela proclamação íntegra da Palavra de Deus e pela celebração dos santos sacramentos instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo.
Ao mesmo tempo, essa compreensão aproxima-se da importante distinção desenvolvida pelos movimentos da Reforma do século XVI, especialmente por Martinho Lutero, que, inspirado em reflexões já presentes na teologia elaborada por Santo Agostinho, aprofundou a compreensão teológica dos conceitos de “Igreja visível” e “Igreja invisível”. A Igreja visível é aquela que encontramos na história, organizada em comunidades concretas, com seus bispos e bispas, ministros e ministras, estruturas, doutrinas, sacramentos, virtudes e limitações humanas. É a Igreja que vemos reunida em torno da Palavra de Deus e dos Sacramentos. A verdadeira Igreja é, em seu sentido mais profundo, o Corpo Místico de Cristo, a comunhão de todas as pessoas fiéis unidas ao Senhor pela fé e conhecidas plenamente somente por Deus.
Com a consciência tranquila e o coração pleno de paz, podemos afirmar respeitosamente que essa “Igreja invisível” não se identifica plenamente com nenhuma instituição eclesiástica particular, seja ela Romana, Luterana, Anglicana, Ortodoxa, Presbiteriana, Metodista, Batista ou qualquer outra. A Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica é sempre maior do que qualquer uma de suas expressões históricas e institucionais. Ela transcende nossas fronteiras denominacionais e permanece reunida em Cristo pelo poder do Espírito Santo, manifestando-se visivelmente onde a Palavra de Deus é proclamada com fidelidade e os sacramentos são celebrados conforme a instituição de nosso Senhor Jesus Cristo.
Essa distinção oferece uma importante contribuição para a compreensão da catolicidade da Igreja. Ela nos impede de identificar de forma absoluta qualquer denominação com a totalidade da Igreja Católica de Cristo e nos recorda que a graça de Deus não está aprisionada às fronteiras de uma única instituição. Ao mesmo tempo, preserva a convicção de que existe uma só Igreja, um só Corpo e um só Senhor, do qual participam todas as pessoas que, pela graça de Deus, pertencem a Cristo.
Dessa forma, essa compreensão da “Igreja invisível” não enfraquece a importância da “Igreja visível”, nem das antigas Sés Apostólicas de Roma, Constantinopla, Alexandria, Antióquia e Jerusalém, tampouco da Sé de Cantuária para a tradição anglicana, com a qual a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, mantém laços históricos de afeição, comunhão doutrinária, litúrgica e missionária, permanecendo em plena e permanente comunhão no âmbito da Comunhão Anglicana. Pelo contrário, amplia o horizonte da nossa catolicidade, convidando-nos à humildade, ao respeito mútuo e ao compromisso ecumênico, reconhecendo que a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica é sempre maior do que qualquer uma de nossas expressões institucionais e que sua plenitude repousa, em última instância, no mistério do Corpo de Cristo reunido pelo Espírito Santo através dos séculos e das nações.
Tendo presente essa compreensão, afirmamos que ser parte da Igreja Católica de Cristo, do modo como professamos nos Credos Ecumênicos, significa ainda, conforme o ensinamento de São Vicente de Lérins, participar daquilo que foi crido "em toda parte, sempre e por todos". A palavra "católico" certamente inclui a dimensão da universalidade, mas seu significado é muito mais profundo. A catolicidade da Igreja, como ensinava o saudoso e querido professor Rev. Jaci Maraschin, em seu livro recém-republicado “O Espelho e a Transparência”, “significa a fidelidade da Igreja à totalidade da vida redimida trazida por Jesus Cristo”. Assim, quando professamos no Credo que a Igreja é católica, afirmamos que nela se manifesta a possibilidade real de uma humanidade plenamente redimida, restaurada à sua vocação divina e revelada em Jesus, o Cristo, plenitude da vida de Deus no mundo. Portanto, ser católico é estar enraizado na fé apostólica recebida da Igreja primitiva, permanecer em comunhão com o povo de Deus de todos os tempos e lugares e reconhecer que o Evangelho é sempre maior do que qualquer cultura, ideologia, grupo ou preferência pessoal. A catolicidade é a plenitude da vida da Igreja em Cristo.
Assim sendo, a compreensão da catolicidade da Igreja nos conduz à vivência de uma fé profundamente sacramental e deliberadamente encarnada na vida cotidiana, na missão e na evangelização, orientada pelas Cinco Marcas da Missão da Comunhão Anglicana.
Essa dimensão da fé católica manifesta-se no amor e na reverência pela Santa Eucaristia, celebrada com constância, atenção interior e consciência da presença real de Cristo que se oferece ao seu povo. Não se perde em disputas estéreis herdadas das controvérsias do século XVI sobre transubstanciação, consubstanciação ou outras formulações teóricas. Antes, reconhece que o Sacramento da Santa Eucaristia é o grande mistério da fé, encontro vivo com Cristo e alimento para a missão, e sustenta-se em uma vida de oração perseverante, pessoal e comunitária. Cultiva a beleza da liturgia, conforme a recebemos no Livro de Oração Comum e no Movimento Litúrgico e ecumênico, como linguagem teológica: símbolos que falam, música que ora, silêncios que educam o coração, tempos litúrgicos que formam a alma e sacramentos que revelam a presença de Deus no meio do seu povo.
O anglo-catolicismo também supõe uma compreensão amadurecida da Igreja como Corpo vivo de Cristo, uma eclesiologia de comunhão, portanto sinodal, ou uma eclesiologia eucarística, na qual todas as pessoas batizadas, participantes do sacerdócio comum dos fiéis, participam da missão recebida de Deus e são fortalecidas pela Divina Ruah. Nessa compreensão, reconhece-se o valor do ministério ordenado e da plena inclusão das mulheres nesse ministério, podendo servir como bispas, presbíteras e diáconas. Ao mesmo tempo, de modo particular, conforme destaca o Quadrilátero de Chicago-Lambeth, preservamos e valorizamos o ministério episcopal, adaptado localmente às necessidades das diversas Igrejas da Comunhão Anglicana, não como privilégio ou instrumento de poder, mas como dom de Deus para a comunhão e plenitude da Igreja Católica de Cristo.
A sucessão episcopal histórica, por sua vez, não é nostalgia do passado, mas serviço à unidade, à reconciliação e ao cuidado pastoral do clero e do povo de Deus. Desse modo, nossos bispos e bispas são chamados a exercer um ministério de cuidado, unidade, ensino e pastoreio, como pais e mães em Deus para o povo e o clero que lhes foi confiado. Por isso, a Igreja antiga podia afirmar, com Santo Inácio de Antióquia, que onde está o bispo, ali se torna visível a Igreja. E hoje também afirmamos a nossa comunhão com os bispos e bispas da Igreja, com a consciência de que elas e eles não substituem Cristo, mas exercem um ministério que existe para servir à unidade da Igreja reunida em torno da Palavra e da Mesa do Senhor.
E assim afirmamos com serenidade que a Igreja Católica de Cristo é sempre maior do que as “igrejinhas”. Jaci Maraschin chamava de “igrejinhas” a tendência de transformar nossa visão pessoal ou grupal em Igreja. Como ele recordava, a Igreja na qual cremos é maior do que nossas concepções a seu respeito. A Igreja está acima de nossas doutrinas sobre a Igreja. Entretanto, não temos acesso à Igreja senão por meio das “igrejinhas”, isto é, das comunidades concretas nas quais vivemos a fé.
Aqui se revela uma distinção decisiva. O anglo-catolicismo, ou melhor, a compreensão da catolicidade da Igreja, amplia o nosso horizonte e a nossa compreensão da Igreja de Cristo. Ainda conforme Jaci Maraschin, a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica não é uma ideia abstrata, mas uma realidade concreta. Ela se manifesta nas “igrejinhas” e nas denominações cristãs sempre que o Evangelho de Jesus Cristo é anunciado e os Sacramentos são celebrados. Por isso, a verdadeira catolicidade gera raízes, comunhão e maturidade espiritual, pois nos ajuda a enxergar a Igreja de Cristo para além de nossos limites, preferências e particularidades.
Já o anglo-caos surge quando a tradição é utilizada sem discernimento, quando a liturgia se afasta da boa teologia pastoral e acadêmica, quando a estética substitui a espiritualidade e quando a identidade se dissocia da responsabilidade eclesial.
A catolicidade evangélica constrói o Corpo de Cristo. Já o movimento anglo-caótico, ainda que por vezes seja composto por pessoas bem-intencionadas, tende a fragmentá-lo. Frequentemente manifesta-se em atitudes de autossuficiência espiritual, resistência à comunhão, desobediência canônica, pouca observância da liturgia oficial da Igreja expressa no Livro de Oração Comum e dificuldade em reconhecer que ninguém é maior do que a Igreja que o recebeu, nem superior à comunidade de fé da qual faz parte. De forma respeitosa, de tempos em tempos precisamos relembrar o óbvio: a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, não é uma igreja congregacional, presbiteriana, batista, pentecostal, Católica Romana ou Ortodoxa. Cada uma dessas tradições cristãs possui sua própria história, espiritualidade, disciplina eclesiástica, doutrinas e formas de culto, e todas elas têm o nosso máximo respeito e apreciação. A Comunhão Anglicana mantém diálogo ecumênico com essas expressões legítimas e vivas do cristianismo, aprecia suas contribuições e, sempre que possível, coopera em iniciativas comuns de testemunho ecumênico e de serviço diaconal e missionário.
Contudo, assim como o anglo-caos pode surgir pela importação acrítica de modelos litúrgicos e eclesiológicos alheios à tradição episcopal anglicana, também não contribuem para a identidade anglicana as tentativas de transformar a IEAB em algo estranho à sua própria eclesiologia, espiritualidade, forma de governo ou tradição litúrgica. A verdadeira catolicidade não consiste em copiar outras tradições, mas em permanecer fiel à vocação recebida, vivendo em comunhão com toda a Igreja de Cristo e respeitando a identidade, a história e os dons que Deus concedeu a cada tradição cristã.
É fundamental recordar e interiorizar que ser cristão, e viver uma espiritualidade autenticamente católica no anglicanismo, significa participar da fé apostólica com coração evangélico. Quer dizer, permanecer em comunhão com o bispo ou bispa diocesana, com os colegas de ministério e com o povo de Deus, sem eliminar as diferenças legítimas que enriquecem a vida da Igreja. E também significa buscar a unidade pela qual Cristo orou: “Que todos sejam um, para que o mundo creia” (João 17.21). Implica amar a Igreja como Cristo a amou e por ela se entregou (Efésios 5.25). Requer caminhar sinodalmente, ouvindo o Espírito Santo que continua falando por meio das Escrituras, da tradição viva da Igreja, do povo de Deus e dos sinais dos tempos.
Talvez seja esta a melhor definição de catolicidade conforme a compreensão da Comunhão Anglicana e da IEAB: “A Comunhão Anglicana é apenas uma parte da Igreja Católica, simplesmente a fé primitiva, católica e apostólica, incorporada nas Escrituras, nos credos, nos sacramentos e no ministério apostólico de bispos, sacerdotes e diáconos. Um ministério católico e um vínculo de continuidade e unidade ao longo dos tempos e em todo o mundo. Servindo a Cristo lealmente nesta Comunhão onde Ele nos colocou, aproximamo-nos de ambos os lados, buscando construir a unidade da única Igreja Católica” (Arcebispo Michael Ramsey, 1904–1988). Somos, por natureza e vocação, “uma Igreja católica, que é e deve ser continuamente reformada”. E declaramos com humildade e convicção: somos uma Igreja “católica para toda a verdade de Deus e protestante contra todos os erros” (LOC/IEAB, 1930).
+Francisco Cézar Fernandes Alves,
7° bispo da Diocese Anglicana de São Paulo (DASP/IEAB)





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