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Uma singela sugestão de uma Regra de Vida para a Quadra da Quaresma


Prezados colegas, irmãs e irmãos em Cristo, paz e bem!


Estamos às portas da Quaresma. E é importante desconstruir a ideia de que a Quaresma seja um peso. Ao contrário, é um tempo de graça. Talvez mais do que qualquer outro período do ano litúrgico, ela nos reconduz ao essencial. Não se trata de acumular práticas ou impor exigências, mas de consentir, com humildade e confiança, que Deus nos refaça por dentro, que trabalhe silenciosamente no coração, ali onde a verdadeira transformação acontece. Desse modo, em comunhão com a Igreja Católica de Cristo, iniciamos o tempo santo da Quaresma orando: “cria em nós corações novos e contritos” (LOC/IEAB, pág. 177). E no Salmo 51, que a Igreja nos propõe no lecionário para meditação na Quarta-feira de Cinzas, recitamos: “Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável.” (Salmo 51.10).


E assim vamos tomando consciência de que a Igreja, com sabedoria e cuidado pastoral, não nos oferece primeiro uma lista de tarefas para serem executadas na quadra da Quaresma. Porém, em conformidade com a nossa tradição litúrgica do LOC, a Igreja nos oferece um convite para um tempo especial de oração contemplativa. E, dentro dessa oração, um pedido que vai direto ao centro da vida: “cria em nós corações novos e contritos”.


Hoje, em oração, enquanto rascunhava esta mensagem, li a carta de Sua Graça Sarah Mullally, Arcebispa de Cantuária, dirigida ao Episcopado da Comunhão Anglicana. Ela nos recorda que Jesus, antes de iniciar seu ministério público, foi conduzido pelo Espírito ao deserto. E, em “deserta solidão”, longe das vozes e expectativas, Ele se colocou diante do Pai em oração. Jesus jejuou e confrontou as tentações. Alimentou-se da Palavra. E saiu do deserto não com respostas fáceis, mas com uma clareza interior — uma liberdade obediente à vontade de Deus. E, após 40 dias (Quaresma), Nosso Senhor Jesus Cristo, saiu renovado, inteiramente livre e determinado a viver a vontade de Deus, custasse o que custasse.


O deserto, assim, não é fuga. É lugar de encontro e verdade.


É o “espaço” onde aprendemos quem somos diante de Deus.


Também, o “Anúncio da Quaresma”, conforme o Livro de Oração Comum, nos recorda a importância da “constante necessidade de renovação”. Isso implica reconhecer que o coração humano se dispersa, se cansa, se obscurece e, ainda assim, permanece aberto à ação paciente da graça de Deus.


Como, então, acolher um coração novo neste tempo quaresmal?


Como permitir que a conversão seja algo mais do que um sentimento passageiro?


Veio-me então à memória um poema de John Keble, sacerdote anglicano e poeta, que escreveu palavras simples e imortais: “Novo a cada manhã é o amor.”


Não é extraordinário?


Não é libertador saber que as misericórdias de Deus se renovam a cada manhã? (Lamentações 3.23)


Keble, cuja memória celebramos, em conformidade com o calendário do LOC, no dia 29 de março, encarnou e viveu com generosidade essa verdade na vida ordinária. Na fidelidade discreta de um sacerdote servindo em uma pequena cidade. Na Eucaristia celebrada com reverência e constância. Na oração matutina e vespertina, rezada dia após dia, adorando a Deus, intercedendo pelas necessidades de seus paroquianos e elevando preces por toda a Igreja e pela humanidade. Na catequese ensinada com paciência às crianças. Nas visitas às famílias, às pessoas idosas e enfermas. Nas cartas, por meio das quais mantinha vasta correspondência com pessoas que buscavam direção espiritual e aconselhamento pastoral e nos encontros simples da vida paroquial, onde a graça se manifesta sem alarde.


Nascido em 1792, John Keble cresceu em uma família cristã; seu pai era sacerdote anglicano, e ele recebeu sólida formação teológica e acadêmica em Oxford. Ordenado Presbítero em 1816, entregou-se ao ministério pastoral no contexto rural, encontrando sua vocação definitiva na vila de Hursley (https://chobenefice.co.uk/history-hursley/). Keble e sua esposa, Charlotte Clarke, fizeram a sua Páscoa em 1866 e estão sepultados no cemitério da paróquia de Hursley, onde ele foi pároco e serviu com generosidade e amor por 30 anos. Ele é um exemplo de uma fé vivida no ritmo do cotidiano. Um ministério sacerdotal tecido no ordinário. No compasso das semanas e dos ofícios da Igreja. No chão concreto da existência humana.


“Novo a cada manhã é o amor. O acordar e o levantar nos provam que, sono e na escuridão, fomos cuidados, e que, ao viver, querer e pensar, fomos restaurados à vida.” (O Ano Cristão, John Keble).


Com essa disposição no coração, compartilho uma proposta de Regra de Vida para a Quadra da Quaresma. Essa proposta foi confeccionada pelo bispo Michael Curry e apresentada por ocasião da 79ª Convenção Geral da Igreja Episcopal, em 5 de julho de 2018. Ele a chamou de sete práticas — uma Regra de Vida para o “Caminho do Amor”.

São passos simples. E, justamente por serem singelos, podem nos sustentar no tempo quaresmal e, quem sabe, muito além.


Passos que educam o desejo.


Que organizam o afeto e que devolvem inteireza ao chamado e à promessa que recebemos no dia do nosso Santo Batismo: “No Batismo estás selado(a) pelo Espírito Santo com o sinal da Cruz. És de Cristo para sempre.” (LOC/IEAB, pág. 558).


  • Faça uma pausa: ouça e escolha seguir Jesus;

  • Aprenda: reflita diariamente sobre as Escrituras, especialmente sobre a vida e os ensinamentos de Jesus;

  • Ore: passe tempo com Deus em oração todos os dias;

  • Adore/adoração: reúna-se em comunidade para a adoração semanal;

  • Abençoe: compartilhe a fé e encontre maneiras concretas de servir outras pessoas;

  • Vá/Ide: ultrapasse o conforto para testemunhar o amor de Deus com palavras e ações;

  • Descanse: dedique tempo à restauração e à integridade da vida;


Que Deus, nosso Pai e Mãe, nos conceda uma abençoada e santa Quadra da Quaresma.

Que, a cada manhã, o amor seja novo em nós, em nossas famílias, em nossas comunidades, na Igreja de Cristo, na humanidade e em toda a Criação de Deus.


Em paz, oremos ao Senhor:


“Onipotente e eterno Deus, que amas tudo quanto criaste e que perdoas a todas as pessoas penitentes; cria em nós corações novos e contritos, para que, lamentando os nossos pecados e confessando a nossa imperfeição, alcancemos de ti, Deus de suma piedade, perfeita remissão e perdão; por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém.” (Livro de Oração Comum/IEAB, pág. 177).


+ Cézar Fernandes Alves, 7° bispo da Diocese Anglicana de São Paulo – (DASP/IEAB).

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