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29 de setembro: Festival de São Miguel e Todos os Anjos

há 8 horas
21 min de leitura
Esta imagem é composta por fotografias de minha autoria, feitas em 2024, por ocasião de uma reunião da Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), em Salvador, Bahia. As fotografias foram realizadas na capela do CTL – Centro de Treinamento de Líderes de Itapuã, casa de retiros e eventos da Arquidiocese de Salvador, situada no bairro de Itapuã, próximo ao mar. A obra retratada na capela é de autoria dos irmãos da Comunidade Ecumênica de Taizé que vivem na periferia de Alagoinhas, Bahia. Naquela ocasião, o retiro espiritual da Câmara Episcopal foi conduzido por um dos irmãos de Taizé, tornando ainda mais significativa a presença dessa obra no contexto de nossa oração e reflexão (https://www.taize.fr/pt/brasil). Fotografias: Francisco Cézar Fernandes Alves, Salvador, BA, 2024.
Esta imagem é composta por fotografias de minha autoria, feitas em 2024, por ocasião de uma reunião da Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), em Salvador, Bahia. As fotografias foram realizadas na capela do CTL – Centro de Treinamento de Líderes de Itapuã, casa de retiros e eventos da Arquidiocese de Salvador, situada no bairro de Itapuã, próximo ao mar. A obra retratada na capela é de autoria dos irmãos da Comunidade Ecumênica de Taizé que vivem na periferia de Alagoinhas, Bahia. Naquela ocasião, o retiro espiritual da Câmara Episcopal foi conduzido por um dos irmãos de Taizé, tornando ainda mais significativa a presença dessa obra no contexto de nossa oração e reflexão (https://www.taize.fr/pt/brasil). Fotografias: Francisco Cézar Fernandes Alves, Salvador, BA, 2024.

Conforme o Calendário Litúrgico (Ano Cristão) da IEAB, no dia 29 de setembro, celebramos o Festival de São Miguel e Todos os Anjos (LOC/IEAB, edição de 2015). Na tradição anglicana, esta é uma antiga festa litúrgica, presente no Livro de Oração Comum de 1662 e preservada, de diferentes formas, nos livros de oração de várias Províncias da Comunhão Anglicana.


Conforme nos recorda o Rev. David Stanton, Cônego da Abadia de Westminster: “Os anjos nos incentivam a sermos gratos pelo que temos e a enxergarmos pequenos atos de misericórdia e bondade como reflexos do nosso Deus vivo. Talvez um anjo da guarda atue particularmente através da nossa imaginação e memória, aproximando-nos da presença divina e abrindo nossos olhos para a sua glória.”


Com esse espírito, compartilhamos a reflexão que segue com todas as comunidades e o clero da Diocese Anglicana de São Paulo (DASP), na esperança de que, “com os anjos e arcanjos e com toda a multidão celestial...”, prossigamos em nossa vocação de louvar e adorar a Deus, servir ao seu povo e proclamar o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.



“Com os anjos e arcanjos e com toda a multidão celestial...”

(Livro de Oração Comum — IEAB, p. 299)


Hoje, a Igreja Católica de Cristo celebra o Festival de São Miguel e Todos os Anjos. Na tradição anglicana, esta é uma festa litúrgica preservada no Livro de Oração Comum de 1662, que nos convida a abrir os olhos para uma dimensão da fé que a pressa cotidiana facilmente nos faz esquecer: a criação de Deus é maior do que aquilo que podemos ver, tocar ou compreender.


Celebrar os santos anjos é, portanto, deixar que a fé alargue o nosso olhar. É reconhecer que a realidade não termina naquilo que os nossos sentidos alcançam e que a vida está envolvida por um mistério maior: o mistério de Deus, em quem todas as coisas, visíveis e invisíveis, encontram sua origem, sua unidade e sua esperança.


Não se trata de abandonar o mundo visível para buscar refúgio num universo espiritual distante. Trata-se, antes, de perceber que o mundo visível não esgota a realidade. Há profundidades da criação que escapam aos nossos sentidos. Há mistério. Há comunhão. Há uma vida de adoração que precede nossa oração e continuará quando nossas vozes já tiverem silenciado.


Mensageiros do mistério de Deus


As palavras mal’akh, em hebraico, e angelos, em grego, significam “mensageiro”. Isso já nos oferece uma chave teológica importante. O anjo bíblico não existe para atrair para si o olhar humano. Sua existência é relacional. Sua vocação consiste em apontar para além de si mesmo, para Deus.


Os anjos aparecem quando Deus anuncia, acompanha, protege, liberta, cura e chama. Talvez, portanto, a pergunta cristã mais fecunda não seja simplesmente: “Como são os anjos?”, mas: “Para quem eles apontam?”


De Gênesis ao Apocalipse, eles aparecem nos lugares onde a história humana se abre para o mistério divino. Jacó contempla os mensageiros de Deus subindo e descendo entre a terra e o céu (Gn 28.12). Isaías ouve os serafins proclamarem que toda a terra está cheia da glória divina (Is 6.1–3). Gabriel anuncia a Maria que Deus vem habitar entre nós (Lc 1.26–38). Miguel aparece em Daniel e no Apocalipse como sinal de que as forças que desfiguram a criação não possuem a palavra definitiva (Dn 10.13; 12.1; Ap 12.7–9).


Há uma bela percepção de Rowan Williams, 104º Arcebispo de Cantuária, que ilumina essa tradição. Em um sermão pregado na Abadia de Westminster na Festa de São Miguel e Todos os Anjos, em 2016, o Rev. David Stanton, então Canon Treasurer and Almoner da Abadia, recordou uma reflexão que ouvira de Williams alguns anos antes. Referindo-se a um mestre espiritual da Igreja antiga, Williams falava de três maneiras de contemplar a realidade: a diabólica, a humana e a angélica. A maneira diabólica coloca o próprio eu no centro de todas as coisas; a maneira angélica, ao contrário, contempla todas as coisas em sua relação com Deus. Talvez esteja aí uma das vocações espirituais desta festa: descentrar o olhar de nós mesmos e aprender, com os anjos, a contemplar o mundo em sua relação com Deus, até começarmos a reconhecê-lo pulsando com a presença divina.


Mais recentemente, ao pregar na Christ Church, Taney, na Festa de São Miguel e Todos os Anjos, o arcebispo Rowan Williams, encontrou na própria vocação dos anjos uma imagem da vocação da Igreja. Segundo Williams, os anjos nas Escrituras “voltam-se para Deus, amam o que contemplam e falam sobre isso”. E acrescentou: “Que descrição de trabalho para a Igreja: voltamo-nos para Deus, amamos o que contemplamos e falamos sobre isso. É aí que começa o nosso testemunho.” Talvez esteja aqui uma das maneiras mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas de compreender a espiritualidade angélica: o anjo é uma criatura inteiramente voltada para Deus; contempla a beleza e a verdade divinas e torna-se mensageiro daquilo que contempla. E essa é também a vocação da Igreja: voltar-se continuamente para Deus, aprender a amar aquilo que contempla e, então, testemunhar ao mundo o amor que recebeu.


Silêncio, contemplação e profecia


Matthew Fox, sacerdote e teólogo da Igreja Episcopal, recuperando especialmente a tradição mística de Tomás de Aquino, chama atenção para outra dimensão fascinante da angelologia cristã. Para o dr. Matthew Fox, a tradição de São Tomás de Aquino relaciona os anjos à intuição, à imaginação profética, à contemplação e à comunicação da revelação divina. Assim, a experiência angélica não nos conduz simplesmente à curiosidade acerca do mundo invisível; conduz-nos à escuta, ao silêncio e a uma atenção mais profunda à presença de Deus. O revdo. Fox recupera de São Tomás de Aquino uma expressão belíssima: os anjos são “anunciadores do silêncio divino”.


Há nisso um paradoxo profundamente cristão. O mensageiro anuncia, mas aquilo que anuncia nasce da comunhão com Deus, do silêncio orante. Antes da palavra, a escuta. Antes da missão, a contemplação. Antes da profecia, o coração atento a Deus.


Por isso, a tradição dos anjos pode ensinar alguma coisa também à Igreja. Precisamos aprender novamente a permanecer diante de Deus até que nossas palavras nasçam de um silêncio habitado. Precisamos de uma Igreja suficientemente contemplativa para escutar e suficientemente profética para falar.


São Rafael: Deus caminha conosco



Para mim, entre as narrativas mais ternas das Escrituras está o Livro de Tobias. Desde a minha adolescência, sou particularmente tocado pela imagem de São Rafael caminhando ao lado do jovem Tobias, acompanhado também por seu cachorrinho de estimação. Há algo profundamente humano nessa cena: um jovem a caminho, um anjo que o acompanha sem ser reconhecido e um pequeno animal que segue com eles. O céu, a humanidade e a criação caminham juntos pela mesma estrada.


Rafael, cujo nome significa “Deus cura”, não aparece inicialmente envolvido pelo esplendor do céu. Ele chega como companheiro de viagem. Tobias caminha ao lado de um anjo sem saber que caminha ao lado de um mensageiro do Altíssimo. Somente ao final, o Arcanjo São Rafael revela que estivera diante de Deus quando Tobit e Sara rezavam e que fora enviado pelo Altíssimo para acompanhar, libertar e curar (Tb 12.12–15).


Há aqui uma imagem espiritual de extraordinária beleza: a providência de Deus pode estar caminhando conosco muito antes de sabermos reconhecê-la.


O teólogo e doutor em Psicologia Jean-Yves Leloup, ao meditar sobre o Livro de Tobias, faz uma leitura bíblica e teológica iluminada também pela psicologia. Ele chama a atenção para uma imagem quase doméstica e cheia de ternura presente na narrativa: Tobias caminha acompanhado por um anjo e por um cão, ou, como diríamos hoje, por seu pet, seu companheiro peludo. Confesso que gosto até de imaginar, com certa liberdade e bom humor, que fosse um vira-lata caramelo.


O padre Leloup percebe nessa cena uma bela imagem da condição humana. Segundo ele, no caminho de nossa existência precisamos fazer “o elo entre a terra, a animalidade e o espírito”. Somos criaturas da terra, corporais, pertencentes à materialidade da criação e trazendo em nós instintos e necessidades; mas somos, ao mesmo tempo, seres abertos ao infinito, capazes de intuição, transcendência e desejo de Deus. Por isso, o caminho espiritual não consiste em negar ou desprezar nenhuma dessas dimensões, mas em permitir que toda a nossa humanidade encontre integração diante de Deus. Leloup utiliza uma imagem especialmente bonita ao falar de nossa abertura ao transcendente: às vezes experimentamos como que “uma espécie de comichão das asas”, como se alguma coisa em nós desejasse abrir-se para além dos limites imediatos da existência. Não se trata de fugir da terra, mas de viver nela sem perder a abertura para o céu; respeitar o corpo sem esquecer o espírito; acolher nossos instintos sem sufocar nossas aspirações mais profundas.


E é justamente nesse caminho que aparece São Rafael, “Deus cura”. Para Leloup, a cura realizada pelo anjo começa de maneira muito simples: “esse anjo começa a curar pelo seu acompanhamento”. Rafael não aparece apenas para resolver um problema. Ele se põe a caminho com Tobias. Caminha ao seu lado, orienta, protege, escuta e permanece. Há nisso uma bela teologia do cuidado: às vezes, a cura começa simplesmente quando alguém decide caminhar conosco.


Por isso, Leloup conclui que é preciso caminhar “ao lado do seu anjo sem esquecer do seu cão”. É uma imagem profundamente humana: entre o anjo e o cão está Tobias, entre o céu e a terra, entre o instinto e a transcendência, entre aquilo que somos e aquilo para o qual Deus nos chama. O ser humano não encontra sua plenitude rejeitando uma parte de si, mas permitindo que, pela graça, terra e céu, corpo e espírito, fragilidade e desejo de infinito sejam reconciliados e integrados numa mesma existência diante de Deus.


E ainda, com relação a Tobias e ao livro bíblico que leva seu nome, com sua narrativa tão bela e singular sobre a presença companheira, protetora e terapêutica do Arcanjo São Rafael, convém recordar o lugar particular que esse escrito ocupa em nossa tradição. Tobias pertence ao conjunto de livros que a tradição católica denomina deuterocanônicos e que os Trinta e Nove Artigos de Religião incluem entre os livros que, seguindo São Jerônimo, “a Igreja lê para exemplo de vida e instrução de costumes; mas não os aplica para estabelecer doutrina alguma” (Artigo VI do LOC da Igreja Episcopal - edição brasileira de 1950). Trata-se de uma obra judaica do período do Segundo Templo, provavelmente composta por volta de 200 a.C. ou pouco depois, e transmitida à Igreja antiga especialmente pela Septuaginta; os manuscritos de Qumran preservaram também fragmentos de Tobias em aramaico e hebraico. Na tradição anglicana, portanto, esses livros não foram simplesmente afastados da vida da Igreja: permaneceram na oração, na liturgia e na formação espiritual do povo de Deus, estando presentes nos lecionários de diferentes Províncias da Comunhão Anglicana. Isso é particularmente significativo na Igreja da Inglaterra, onde os Trinta e Nove Artigos de Religião, incorporados ao Livro de Oração Comum de 1662, permanecem entre os formulários históricos que expressam sua doutrina e conservam autoridade eclesial. É justamente o Artigo VI que, ao mencionar expressamente o Livro de Tobias, afirma que a Igreja lê esses livros “para exemplo de vida e instrução de costumes; mas não os aplica para estabelecer doutrina alguma”. Há, portanto, uma distinção importante que não significa rejeição: esses textos são recebidos, lidos, proclamados e rezados na vida da Igreja, embora ocupem um lugar distinto na fundamentação doutrinal. Na IEAB, onde os Trinta e Nove Artigos são recebidos como documento histórico, perí¬copes deuterocanônicas também integram o Lecionário do Livro de Oração Comum edição de 2015. Nós os ouvimos na assembleia, oramos com eles e permitimos que alimentem nossa imaginação espiritual e nossa reflexão teológica, sem que isso exija de todas as pessoas anglicanas que os recebam como fundamento necessário para a formulação de doutrinas. O próprio Artigo VI menciona expressamente o Livro de Tobias.


Talvez encontremos aqui algo profundamente característico do espírito anglicano: receber com reverência sem transformar toda recepção em uniformidade. A tradição pode ser suficientemente ampla para acolher esses textos na oração da Igreja, escutar sua sabedoria e fazer teologia a partir deles, preservando, ao mesmo tempo, a liberdade responsável de diferentes compreensões acerca de seu estatuto doutrinal. Cabe aqui aquela conhecida máxima cristã: “Nas coisas essenciais, unidade; nas coisas não essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade.” Durante muito tempo atribuída equivocadamente a Santo Agostinho, a fórmula tornou-se especialmente conhecida por meio do teólogo luterano do século XVII Peter Meiderlin, que a empregou em 1626; pesquisas posteriores identificaram uma formulação anterior muito semelhante em Marco Antonio de Dominis, em 1617. Assim, talvez não precisemos resolver todas as antigas controvérsias sobre o cânon antes de nos deixarmos tocar pela beleza de Tobias. Podemos entrar na narrativa e caminhar com ele e com Rafael, permitindo que essa antiga história nos ensine algo sobre a providência, a cura e o cuidado de Deus: às vezes, a graça já está caminhando ao nosso lado muito antes que sejamos capazes de reconhecê-la.


São Rafael cura, antes de tudo, acompanhando.


Talvez encontremos aqui uma dimensão muito bela da teologia do cuidado. Nós, pessoas ordenadas que servimos no ministério sacerdotal, e também as pessoas do laicato que exercem os diversos ministérios de serviço, cuidado e organização da Igreja, somos, de diferentes maneiras, pessoas cuidadoras. É verdade que nem sempre possuímos a formação específica de quem exerce profissionalmente a função de cuidador ou cuidadora; ainda assim, o cuidado faz parte profundamente da vocação cristã e do ministério que recebemos.


E isso não acontece apenas na Igreja. Acontece também dentro de nossas casas. Quantos de nós cuidamos ou já cuidamos dos filhos e filhas, de nossas mães e pais quando envelhecem, de nossos companheiros e companheiras, de familiares e amigos quando adoecem ou atravessam momentos de fragilidade. Em algum momento da vida, quase todos somos chamados a cuidar e, também, a permitir que alguém cuide de nós.

Gosto de imaginar que encontramos em São Rafael uma luz e uma inspiração para esse ministério do cuidado. Rafael não acompanha Tobias à distância. Caminha com ele. Escuta, orienta, protege e permanece. E talvez haja aí uma sabedoria que precisamos reaprender: cuidar não significa possuir todas as respostas, nem resolver todos os problemas. Às vezes, cuidar significa simplesmente não deixar alguém atravessar sozinho o caminho.


E também nós, quando cuidamos, não somos chamados a cuidar sozinhos. O cuidado cristão nasce da comunhão: cuidamos sustentados pela graça de Deus e por uma comunidade que também deve aprender a cuidar de quem cuida.


Nem toda cura começa com uma resposta. Algumas começam quando alguém decide caminhar conosco. Talvez por isso a Carta aos Hebreus nos diga: “Não vos esqueçais da hospitalidade, pois, graças a ela, alguns hospedaram anjos sem perceber.”

(Hb 13.2)


O mistério de Deus pode aproximar-se de nós sob formas surpreendentemente comuns: no estrangeiro que acolhemos, numa visita, numa pessoa que sabe escutar, numa mão estendida ou simplesmente em alguém que permanece ao nosso lado quando o caminho se torna difícil. Talvez, muitas vezes, os anjos de Deus se façam perceber justamente no mistério de uma presença que cuida.


Cristo: onde céu e terra se encontram


Mas toda angelologia verdadeiramente cristã precisa conservar uma clareza fundamental: os anjos não são o centro da fé cristã. Cristo é o centro.


Os anjos anunciam seu nascimento. Servem-no no deserto. Testemunham a alegria da Ressurreição. Entretanto, a Carta aos Hebreus afirma claramente a primazia do Filho: os anjos são criaturas, “espíritos servidores”, enviados para o serviço de Deus (Hb 1.4–14). E o Evangelho de João oferece talvez a imagem mais profunda de todas. Retomando o sonho de Jacó, Jesus diz: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.” (Jo 1.51) A escada entre céu e terra já não é simplesmente um lugar. É Cristo. Nele, Deus vem ao encontro da humanidade e a humanidade é acolhida na vida de Deus. Nele, o visível abre-se para o invisível. A própria matéria torna-se lugar de encontro com a graça: o pão e o vinho, dádivas preciosas que recebemos da mãe terra e oferecemos em ação de graças, tornam-se, no mistério da Santa Eucaristia, sacramento do Corpo e do Sangue do Senhor. A história torna-se lugar da graça. Em Cristo, céu e terra deixam de ser realidades estranhas uma à outra: o eterno toca o tempo, o invisível se deixa encontrar no visível, e a criação é acolhida no mistério da redenção.


Aqui encontramos uma intuição muito próxima da teologia de Michael Ramsey, 100º Arcebispo de Cantuária. Ramsey escreveu que, pela Encarnação, Deus tornou-se maravilhosamente próximo: “o céu toca a terra e a terra toca o céu.” E isso nos conduz diretamente à Eucaristia.


“Com os anjos e arcanjos”: quando céu e terra cantam juntos


Talvez seja na liturgia do Livro de Oração Comum e na hinologia episcopal-anglicana que essa teologia encontre uma de suas expressões mais belas. O Arcebispo Michael Ramsey escreveu algo precioso sobre a natureza da liturgia: “A liturgia une céu e terra.” E acrescenta: “A Igreja é um corpo no qual, em meio aos seus muitos membros pecadores e falíveis, Cristo está presente como a vida interior da própria Igreja; e a porção da Igreja que peregrina na terra permanece sempre unida à Igreja no paraíso e no céu.”


E explica a razão: aquele que foi crucificado está agora ressuscitado e glorioso e se faz presente no meio de seu povo. Para Ramsey, na Eucaristia não acontece apenas a condescendência de Cristo vindo ao nosso encontro; a Igreja é também elevada com Cristo para a realidade celestial. É nesse horizonte que ele compreende a Comunhão dos Santos: os santos não substituem a única mediação de Cristo; são membros conosco da única família de Deus, refletindo a glória que pertence a Cristo.

É exatamente isso que experimentamos quando celebramos: não começamos o louvor. Entramos num louvor que já existe. “Com os anjos e arcanjos e com toda a multidão celestial...”(LOC/IEAB, p. 299) E a hinologia episcopal brasileira preservou essa mesma teologia de maneira admirável.


Uma teologia que aprendemos cantando


O Hinário Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, de 1962, possui uma seção própria intitulada “São Miguel e Todos os Anjos”, formada pelos hinos 110 e 111. Isso é teologicamente significativo. Aquilo que a Igreja crê não aparece somente nos tratados de teologia. Está também na oração, na liturgia e nos hinos que gerações de pessoas cristãs aprenderam a cantar. É o antigo princípio lex orandi, lex credendi: a maneira como a Igreja ora expressa e forma aquilo que a Igreja crê. O hino 110, “Anjos” apresenta os seres celestiais como ministros da graça, mensageiros da luz, servidores do propósito divino e criaturas cuja existência desemboca no louvor.


Uma expressão resume admiravelmente essa angelologia: “São mensageiros de graça e de luz.” E o hino acrescenta que eles são “instrumentos de amor divinal”. Hinário Episcopal, hino 110. Percebamos a delicadeza teológica: os anjos não possuem graça independente. Aquilo que trazem vem de Cristo. Não substituem Deus. Servem ao amor de Deus.


Christe Sanctorum: Cristo é a glória dos anjos


Ainda mais significativo é o hino 111. Ele começa colocando imediatamente a devoção aos anjos dentro de seu horizonte cristológico: “Cristo, és a glória / dos teus santos anjos.” Esse primeiro verso poderia servir como síntese de toda uma angelologia anglicana. Cristo é a glória dos anjos. A beleza dos anjos não termina neles. Sua santidade é participação. Seu ministério é serviço. Seu louvor é resposta. Tudo converge para Cristo. Depois, o hino transforma a doutrina em intercessão. Pede que São Miguel defenda a paz e que os ódios sejam vencidos, para que os fiéis cresçam “em amor fraterno”. Pede que São Gabriel, o “celeste arauto”, esteja ligado à comunidade que escuta e adora. E pede que São Rafael comunique, pela bênção divina, saúde e graça para cumprirmos a vontade de Deus. Miguel: paz diante do mal. Gabriel: Palavra e anúncio. Rafael: cura e acompanhamento.


Mas o hino vai ainda mais longe. Une a Bem-aventurada Virgem Maria, os santos, santas e os anjos numa única companhia de louvor, e finalmente desemboca na adoração ao Deus eterno, Três em Unidade: Pai, Filho e Santo Paráclito. A estrutura é profundamente católica e profundamente cristocêntrica. Começa em Cristo. Passa pelos anjos e pela comunhão dos santos e santas de Deus. Termina na adoração da Santíssima Trindade.


“Milhares as vozes, mas um só o amor”


As outras páginas do antigo Hinário Episcopal que acompanham esta reflexão tornam a visão ainda mais ampla. O hino 199, “Glória” imagina potestades, querubins e serafins proclamando a majestade divina, enquanto as criaturas da terra respondem ao cântico celestial. O resultado é uma única liturgia cósmica: céu e terra confessando juntos a santidade de Deus. O hino 216, “Louvor” começa com uma imagem belíssima: “Cantemos aqui, como os anjos dos céus...” E pouco depois oferece uma das sínteses mais belas dessa espiritualidade: “Milhares as vozes, mas um só o amor.”


A multidão não destrói a comunhão. Muitas vozes tornam-se um único louvor. E o hino 218, Vigiles et Sancti alarga ainda mais o horizonte: dominações, principados, virtudes e serafins; patriarcas, apóstolos e santos; a Virgem Maria; anjos e arcanjos, toda essa diversidade é convocada para uma única finalidade: “Louvor excelso a nosso Deus.” Não estamos diante de mera ornamentação poética. É teologia cantada. É também uma herança abençoada que recebemos, no Anglicanismo, dos movimentos de Reforma do século XVI: a convicção de que a fé da Igreja não deve permanecer apenas nos tratados teológicos, mas precisa ser rezada, proclamada e cantada pelo povo de Deus. Aquilo que cantamos também forma aquilo que cremos, fazendo da hinologia um lugar de memória, catequese, oração e transmissão da fé. É uma compreensão mística da Igreja. É a Comunhão dos Santos e Santas de Deus, nosso pai materno transformada em música.


Uma pequena comunidade dentro de uma imensa assembleia


Por isso, quando a Santa Eucaristia é celebrada numa pequena comunidade, num ponto missionário de uma região periférica, talvez com cinco ou oito pessoas reunidas ao redor de um altar simples, a assembleia é muito maior do que aquilo que nossos olhos conseguem contar. E o mesmo acontece numa paróquia cheia ou numa grande catedral. O número muda. O mistério não. Pela ação de Deus, entramos sacramentalmente no mistério pascal de Cristo.


A Igreja peregrina, nós que ainda caminhamos como parte da Igreja militante, cantamos e adoramos a Deus em comunhão com a Igreja celestial. Nós, os vivos, permanecemos unidos àqueles que nos precederam na eternidade e que estão plenamente vivos em Cristo, acolhidos em sua glória. A morte não desfaz a comunhão que tem sua origem e sua plenitude no próprio Cristo. E assim, nossas orações e nossos hinos de louvor são acolhidos numa música infinitamente maior. Às vezes, cantamos acompanhados por corais bem preparados, músicos competentes e toda a beleza que a arte humana é capaz de oferecer ao culto de Deus. Outras vezes, e talvez isso aconteça com muito mais frequência, nossos hinos são cantados de maneira simples, em pequenas capelas, pontos missionários e missões, às vezes até de forma desafinada, sem grande requinte musical, conduzidos por pessoas voluntárias e de boa vontade, mas oferecidos como expressão sincera de nossos corações e de nossos lábios.


Desse modo, não importa se estamos numa grande catedral ou numa pequena capela periférica ou rural: cantamos e adoramos a Deus em comunhão com os santos anjos e com toda a Igreja celestial. A grandeza da liturgia não depende do tamanho do templo, do número de pessoas reunidas ou da qualidade de nossos recursos musicais, mas do mistério no qual somos acolhidos: em Cristo, nossa pequena assembleia participa do louvor de toda a criação. Pouco importa se a nossa voz é tecnicamente perfeita; importa que seja oferecida com autenticidade, com amor e com o desejo sincero de adorarmos a Deus. Ao afirmar isso, longe de mim desqualificar o trabalho maravilhoso, competente e necessário das pessoas que se dedicam à música litúrgica em nossas comunidades. Ao contrário, seu ministério é um dom precioso para a Igreja, ajudando toda a assembleia a transformar em canto sua oração, sua fé e seu louvor. Porque, na liturgia, nenhuma voz canta sozinha. Nossas vozes frágeis são recebidas e sustentadas pela grande doxologia de toda a criação.


O nosso singelo louvor encontra o louvor dos anjos e arcanjos, dos santos e santas, daqueles que nos precederam na fé e de toda a multidão celestial. E então, aquilo que poderia parecer apenas um canto pobre e humano é acolhido no cântico eterno da Igreja: “Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo. Os céus e a terra estão plenos da tua glória.” (LOC/IEAB, p. 350) Talvez seja esse um dos mistérios mais belos da liturgia: Deus recebe a pobreza de nossa voz e a incorpora à música do céu.


O Te Deum Laudamus torna essa realidade ainda mais explícita: anjos, céus, potestades, querubins, serafins, apóstolos e apóstolas, profetas e profetisas, mártires e toda a Igreja unem-se numa única confissão da glória de Deus (LOC/IEAB, p. 79). O arcebispo Michael Ramsey ajuda-nos novamente a compreender o que está acontecendo: a liturgia revela a continuidade da vida “mística e sacramental” da Igreja e torna presente a Comunhão dos Santos. Nunca celebramos sozinhos.


São Miguel, São Gabriel e São Rafael


Assim compreendida, esta festa não existe para alimentar curiosidade sobre o mundo invisível. Ela celebra a fidelidade de Deus e a vocação de toda a criação para o louvor.

São Miguel nos recorda que o mal não terá a última palavra. E o antigo hino episcopal transforma essa convicção numa oração pela paz e pelo amor fraterno.

São Gabriel nos recorda que Deus continua falando, chamando e enviando. Uma Igreja que escuta Gabriel não pode deixar de ser também uma Igreja anunciadora das Boas-Novas e capaz de voz profética.


São Rafael nos recorda que Deus caminha conosco, escuta a oração humana e deseja nossa cura, nossa reconciliação e nossa integridade.


Conforme já mencionamos anteriormente neste ensaio, o Revdo. Dr. Matthew Fox, sacerdote e teólogo da Igreja Episcopal, recupera de São Tomás de Aquino justamente essa dimensão dinâmica da existência angélica: os anjos guardam, inspiram, anunciam, curam e colaboram no serviço da obra de Deus. Mas nenhum deles nos pede que terminemos neles o nosso olhar. Todos apontam para além de si. Todos nos convidam a manter: “os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da fé.” (Hb 12.2)

Não caminhamos sozinhos


Aqui, a teologia de Desmond Mpilo Tutu (1931–2021), Arcebispo Anglicano da Cidade do Cabo, na África do Sul, profundamente marcada por uma espiritualidade ao mesmo tempo encarnada e mística, acrescenta uma consequência importante à nossa reflexão. Para Tutu, a contemplação de Deus jamais poderia ser separada do amor concreto pela humanidade. A adoração que eleva nosso olhar para o céu deve também nos devolver à terra com os olhos mais atentos às suas dores, injustiças e esperanças. Quanto mais profundamente entramos na comunhão com Deus, mais somos chamados a reconhecer sua imagem e dignidade em cada ser humano. A experiência de Deus torna-se, assim, compromisso com a vida e vocação para a reconciliação, a justiça, a compaixão e a paz.


A adoração cristã jamais deveria afastar-nos das feridas do mundo. Pelo contrário: quanto mais profundamente contemplamos a Deus, mais profundamente somos enviados ao mundo que Deus ama. A vitória de Cristo sobre o pecado e a morte não nos transforma em espectadores. Convoca-nos à reconciliação, à justiça, à compaixão, ao perdão e à paz. Assim, podemos contemplar os três arcanjos também como sinais de uma vocação para a Igreja: com São Miguel, resistir ao que destrói; com São Gabriel, anunciar aquilo que dá vida e ser voz profética; com São Rafael, aproximar-nos das feridas para cuidar, ministrar e receber a bênção da saúde. Assim, a contemplação transforma-se em missão.


E há momentos em que precisamos especialmente dessa esperança. Momentos em que o caminho se torna obscuro e não reconhecemos quem caminha conosco. Silêncios nos quais imaginamos que nenhuma oração está sendo ouvida. Noites em que a esperança parece pequena demais diante daquilo que enfrentamos. É precisamente nessas horas que a antiga fé da Igreja nos recorda, com delicadeza e confiança: não caminhamos sozinhos.


A festa de hoje nos diz suavemente: não caminhamos sozinhos. O salmista canta: “O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.” (Sl 34.7) Há uma comunhão maior envolvendo nossa pequena história. Há oração onde percebemos apenas silêncio. Há presença onde experimentamos ausência. Há graça trabalhando discretamente antes mesmo que saibamos reconhecê-la. E, acima de tudo, há Cristo. Cristo, sobre quem os anjos sobem e descem. Cristo, em quem o céu se abre sobre a terra. Cristo, em quem nossa humanidade encontra sua verdadeira vocação. Cristo, Caminho, Verdade e Vida, nosso Senhor e Salvador, em quem todas as coisas, visíveis e invisíveis, encontram sua unidade, sua esperança e sua plena consumação.


Talvez, afinal, seja essa a graça particular desta festa: os anjos não nos convidam simplesmente a olhar para eles. Ensinam-nos a olhar com eles para Deus. E quando fazemos isso, começamos também a olhar diferentemente para o mundo. Voltamo-nos para Deus. Aprendemos a amar aquilo que contemplamos. Começamos então a testemunhar o amor imensurável de Deus pela humanidade e por toda a sua criação. Nossa voz humana encontra a multidão das outras vozes. A oração da comunidade reunida encontra a oração da Igreja inteira. A Igreja peregrina encontra a Igreja celestial. Milhares as vozes, mas um só o amor.


E então, com São Miguel, São Gabriel e São Rafael; com os anjos e arcanjos; com querubins e serafins; com a Bem-aventurada Virgem Maria, os apóstolos e apóstolas, mártires, santos e santas; com aqueles que amamos e que já repousam em Cristo, com nossos ancestrais; e com toda a criação visível e invisível, unimo-nos ao cântico que nunca termina: Santo, Santo, Santo, Senhor Deus do universo. Os céus e a terra estão plenos da tua glória. Glória te seja dada, ó Senhor Altíssimo. Hosana nas alturas! Bendito o que vem em Nome do Senhor! Hosana nas alturas! (Livro de Oração Comum — IEAB, p. 299)


Em comunhão com a Igreja de Cristo, oramos:


Sempiterno Deus, que ordenaste e constituíste os serviços dos anjos e dos seres humanos em ordem maravilhosa; misericordioso permite que, assim como os teus benditos anjos te servem continuamente no céu, também, por tua providência, nos socorram e defendam na terra; mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, na unidade do Espírito Santo. Amém. (Livro de Oração Comum/IEAB, p. 475).


São Miguel e todos os santos anjos de Deus, rogai por nós.


Fontes e referências


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