Memorial de Todas as Almas

“Lembra-te, Senhor, de todas as pessoas que morreram na paz de Cristo e daquelas cuja fé só é conhecida por ti. Conduze-as à tua presença de eterna alegria e luz”. (Livro de Oração Comum — IEAB, p. 328)
Há nomes que pronunciamos com gratidão e alegria. Outros ainda pronunciamos com lágrimas. Há pessoas cuja ausência permanece como um lugar silencioso à nossa mesa, em nossas casas, nas comunidades de fé e, sobretudo, em nosso coração. No Memorial de Todas as Almas, a Igreja nos convida a trazer diante de Deus aqueles e aquelas que morreram. Não porque tenhamos respostas simples para o mistério da morte, mas porque cremos que nenhuma vida desaparece diante daquele que é a fonte de toda a vida.
A fé cristã não nos ensina a negar a morte nem a diminuir a realidade do luto. Jesus também chorou diante do túmulo de seu amigo Lázaro. O Evangelho, porém, nos permite olhar para a morte à luz da Ressurreição. Aquele que foi crucificado vive. E, porque Cristo ressuscitou, podemos confiar que a morte, embora real e dolorosa, não possui a palavra definitiva sobre a existência humana.
É nesse horizonte que a tradição anglicana ora pelas pessoas falecidas. Em nossas celebrações da Santa Eucaristia, nas intercessões da Igreja, trazemos à memória familiares, amigos e amigas, membros de nossas comunidades e todas as pessoas que partiram. Pronunciamos seus nomes diante de Deus porque o amor não se torna inútil diante da morte. A oração da Igreja nasce da confiança de que a misericórdia divina não se esgota e de que a graça de Deus alcança profundidades às quais nossos olhos não chegam.
O apóstolo Paulo expressou essa esperança com extraordinária força: nem a morte, nem a vida, nem qualquer outra realidade criada poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor (Rm 8.38-39). Nem mesmo a morte nos separa do amor de Deus. Esta talvez seja uma das afirmações mais profundas que podemos fazer diante de um túmulo. Nossa esperança não repousa em nossa capacidade de compreender aquilo que acontece depois da morte, mas na fidelidade daquele que nos amou primeiro.
Essa consciência de comunhão atravessa profundamente a espiritualidade anglicana. John Keble, sacerdote e teólogo anglicano, escreveu:
“Temos a comunhão uns com os outros; comunhão não só com os que vivem hoje, mas aqueles que nos precederam e com os que se encontram ainda atrás de nós. Os mortos em Cristo vivem. Eles vivem para Deus. Eles pensam em nós. Eles oram por nós. Considerem quanto próximo devemos estar uns dos outros, quando se diz que os mortos são imperfeitos sem nós. Uma verdade em uníssono com o que lemos de Cristo. O Senhor precisa deles. A Igreja que é seu Corpo, a Sua plenitude que completa tudo em todos. Todos são imperfeitos até que Cristo retorne. Até os melhores são imperfeitos até a Ressurreição. Esta é a verdade sobre os santos. As antigas liturgias preservam o penhor dessa doutrina. O mais elevado dos santos figura entre eles. Cristo intercede por eles e por nós no Céu”.
Aqui encontramos algo muito caro à compreensão anglicana da Igreja: a comunhão dos santos não é destruída pela morte. Somos um só Corpo em Cristo. A Igreja que peregrina neste mundo e aqueles que repousam em Deus pertencem ao mesmo mistério de comunhão cuja cabeça é Cristo. A Eucaristia torna isso particularmente visível: quando nos reunimos ao redor da Mesa do Senhor, nossa oração ultrapassa as fronteiras do espaço e do tempo. Celebramos com toda a Igreja, na terra e no céu, aguardando o dia em que Deus será tudo em todos.
C. S. Lewis, com sua característica franqueza espiritual, escreveu em Cartas a Malcolm:
“Eu oro pelos mortos. A ação é tão espontânea, quase inevitável, que somente o argumento teológico mais coercivo contra ela me deteria. E sei que o restante de minhas orações mal sobreviveria se as feitas pelos mortos fossem proibidas. Em nossa idade, a maioria das pessoas que amamos está morta. Que tipo de relação com Deus eu poderia ter se o que mais amo não pudesse ser mencionado para Ele?”
Lewis continua sua reflexão enfrentando uma questão que durante muito tempo dividiu os cristãos ocidentais: se podemos confiar a Deus, em oração, aqueles que já morreram. Sua resposta nasce menos da especulação sobre o além e mais da própria natureza da oração. Se podemos colocar diante de Deus tudo aquilo que amamos, por que o amor haveria de tornar-se silêncio quando alguém morre? Para Lewis, a oração pelos mortos pertence à própria espontaneidade de uma relação viva com Deus.
Há ainda uma dimensão especialmente comovente nessa oração. O Livro de Oração Comum não nos permite recordar apenas aqueles que conhecemos. Ele nos ensina a rezar também pelas pessoas “cuja fé só é conhecida” por Deus. Essa pequena frase contém uma imensa teologia da graça. Ela nos impede de ocupar o lugar que pertence somente a Deus. Não conhecemos completamente o coração de ninguém. Não sabemos tudo o que aconteceu entre uma pessoa e Deus nos lugares mais secretos de sua existência. Por isso, onde nosso conhecimento termina, continuamos confiando na misericórdia.
Oramos, então, pelas pessoas que morreram sozinhas. Pelas que partiram sem uma mão para segurar. Pelas vítimas das guerras, da violência, da fome e das injustiças. Pelas pessoas esquecidas pela sociedade. Por aquelas cuja morte sequer recebeu uma notícia ou uma lágrima. Pelas pessoas que não conhecemos e cujos nomes jamais pronunciaremos, mas que nunca foram desconhecidas para Deus.
É aqui que as palavras colocadas por Fiódor Dostoiévski nos lábios do Padre Zóssima adquirem uma beleza quase litúrgica:
“Não deixes de repetir cada dia e sempre que possa: ‘Senhor, tem misericórdia dos que comparecem hoje diante de Ti’, porque a cada hora e a cada momento deixam esta vida milhares de almas para se apresentarem a Deus e são muitos os que partem sós, ignorados, tristes de abandono, sem que os acompanhem as lágrimas de alguém, nem se haja notado sequer a sua existência. E considera que, desde os remotos confins da terra, a tua oração pelo descanso dessas almas, que não conheces, chegará ao Senhor, e a alma que estiver na Sua presença como que atemorizada, sentir-se-á comovida de agradecimento ao ver que naquele momento há quem interceda por ela e não falta no mundo um ser que a ama. A ambos olhará Deus com mais misericórdia, pois se tu tiveste piedade dela quanto mais Ele, que é infinitamente bom e misericordioso? Ele perdoará, graças a ti.”
Há uma verdade profundamente cristã nessa imagem: ninguém deveria morrer sem ser amado; e ninguém está fora do alcance do amor de Deus. Nossa oração não pretende determinar aquilo que Deus deve fazer. Ela entrega. Confia. Espera. Coloca uma vida nas mãos daquele cuja misericórdia é infinitamente maior do que a nossa.
Orar pelas pessoas falecidas é, portanto, um exercício de amor e esperança. Não significa possuir mapas precisos do mistério da eternidade. Significa confiar os mortos àquele que conhecemos em Jesus Cristo. E aquilo que conhecemos de Deus em Cristo é misericórdia, graça, fidelidade e amor.
Por isso, a Igreja pode permanecer diante da morte sem negar suas lágrimas. Podemos sentir saudade. Podemos sofrer a ausência. Podemos pronunciar nomes que ainda fazem nosso coração estremecer. Mas fazemos tudo isso diante da Cruz e da Ressurreição. O Cristo que desceu às profundezas da morte é o mesmo que ressuscitou e nos promete que, nele, a vida será finalmente transfigurada.
Hoje, portanto, recordamos nossos pais e mães, filhos e filhas, irmãos e irmãs, familiares, amigos e amigas, pessoas de nossas comunidades e todas aquelas que atravessaram nossa história. Recordamos também quem nunca conhecemos. A memória torna-se oração; a saudade torna-se entrega; e o amor torna-se esperança.
Confiamos cada pessoa ao Deus que conhece aquilo que desconhecemos. Ao Deus cuja misericórdia ultrapassa nossos julgamentos. Ao Deus que permanece fiel quando nossas palavras terminam. Ao Deus de quem, como nos lembra São Paulo, nem mesmo a morte poderá nos separar.
E oramos em comunhão com a Igreja Católica de Cristo:
“Ó Deus, Criador e Redentor da humanidade: concede às pessoas falecidas a garantia dos benefícios da paixão do teu Filho; para que no dia de sua vinda elas sejam manifestadas como tuas filhas e filhos; mediante Jesus Cristo nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém!” (Livro de Oração Comum — IEAB, p. 477)
Que as pessoas falecidas descansem em paz.
E que a luz perpétua brilhe sobre elas. Amém.
+Cézar Alves






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